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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

13.01.26

Portugal distante,

onde Judas perdeu as botas.

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  Aqui não se chega por engano. Não há placas a prometer futuro. Nem rotundas com esculturas abstractas a anunciar progresso. Chega-se porque é preciso. Porque alguém ficou. Porque alguém não saiu a tempo ou porque nunca teve para onde ir. É aí, onde Judas perdeu as botas e o sol se põe mais cedo. Não por razões da Astronomia, mas por razões políticas.   O amigo Manuel tem 54 anos e é um dos mais novos. A frase devia ser suficiente para nos envergonhar. Num país que (...)
23.12.25

Existe paz em não ir

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  Existe paz em não ir. E não é a dos fracos ou a dos que desistiram cedo. É outra paz. Uma paz que aparece quando deixamos de confundir presença com valor. Durante muito tempo, ir foi sinónimo de estar vivo. Ir a tudo. Ir sempre. Ir mesmo quando o corpo não queria e a cabeça estava cheia. Ir porque se vai. Porque não dá para não ir. Porque a ausência precisa sempre de justificação.   Crescemos a treinar o músculo da disponibilidade. A agenda cheia. A deslocação (...)
19.12.25

Em defesa dos que não gostam do Natal,

porque eu adoro.

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  Há pessoas que não gostam do Natal. Não é que odeiem luzes. Nem que tenham tido uma infância infeliz. Nem que sejam amargas por defeito. Simplesmente não gostam. E isso continua a ser visto como uma falha.   Vivemos numa sociedade que aceita quase tudo. Desde que venha acompanhado de entusiasmo. O Natal é um desses territórios onde a adesão é obrigatória. Não gostar é suspeito. É como dizer que não se gosta do mar ou de cães. Quando assim é, algo passa imediatamente a (...)
04.12.25

O "cheiro estrangeiro"

da casa das outras pessoas.

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  Há um instante específico que só acontece quando entramos na casa das outras pessoas. O momento em que o ar nos informa que não estamos no nosso território. O cheiro estrangeiro de uma casa é um relatório imediato sobre o mundo alheio. Comprimido em três segundos de uma inspiração mais profunda.   Um cheiro que com linguagem própria. Um código. Uma espécie de identidade que cada (...)
03.12.25

Desperdiçamos toda uma vida,

enquanto pensamos o que fazer com ela.

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  Vivemos numa sala de espera. E sem darmos por isso. Uma sala sem cadeiras nem janelas. Mas com muitos espelhos. Neles, vemos versões de nós mesmos que quase foram. A pessoa que ia começar um curso. A que ia mudar de carreira. A que ia viajar sem mapa. A que ia aprender a tocar piano. A que ia finalmente dizer não a coisas que sempre disse sim.   É uma sala confortável. Morna. Segura. Cheia de planos. E, como todas as salas de espera, é traiçoeira. Nunca começa nada ali dentro. O desperdà (...)
02.12.25

Se a idade fosse um defeito,

a experiência não seria um diferencial.

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  Se a idade fosse um defeito, o mundo tentava escondê-la como quem tapa uma racha na parede. Só que não funciona assim. A idade não racha. Não esfarela. Não parte. A idade acumula. E tudo o que acumula, pesa. Mas também sustenta.   Tratamos a idade como um ruído incómodo que tentamos abafar com exercício físico. Mas a verdade é mais simples. A idade é aquilo que sobra quando já passou demasiado tempo para fazermos de conta. É o estágio em que o filtroda vida se torna (...)
29.11.25

A vergonha é salgada

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  A vergonha sempre me pareceu um tempero. Não daqueles que se escolhem, entre o pimentão e a noz-moscada, mas daqueles que aparecem sozinhos e estragam o prato. Por isso é que a vergonha é salgada. A minha, pelo menos. É um excesso. Uma pitada que nunca é pitada. É despejada. Generosa. Assertiva demais. É o sal que arruína a refeição antes de nos sentarmos à mesa.   Quando pensamos (...)
28.11.25

O maior pedido de desculpa que fazemos nesta vida

é a nós próprios.

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  Há um momento silencioso, sem dramas e sem plateia, em que percebemos que andámos a pedir desculpa às pessoas erradas. Pior: Não foi sequer às pessoas, mas às circunstâncias. Às expectativas. À versão que criámos para agradar a quem nem vai ficar para jantar. De repente, percebemos o absurdo. A única desculpa que realmente pesa é aquela que nunca pedimos a nós próprios.   Pedir (...)
27.11.25

Nada consegue ser mais inspirador do que a vida real

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  Há uma altura em que percebemos, talvez tarde, mas não demais, que passámos anos a tentar complicar o que estava à nossa frente. É um vício curioso. Procuramos inspiração em livros de capa dura, workshops de fim de semana. Gurus com certezas importadas. Frases em itálico. No entanto, a matéria-prima mais fértil, mais indomável e mais inesgotável continua a ser a mesma. A vida real.   (...)
26.11.25

Dar graças à vida,

por tudo.

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  Dar graças à vida, por tudo. Não é um daqueles quadros do Pinterest. Mas até podia vir com filtros sépia. Montanhas ao fundo. E aquela respiração de quem faz pilates numa sala com cheiro a lavado. O problema não é o que dizemos, mas como o usamos. Dar graças, tornou-se decoração. E quando vira decoração, não serve para nada. Â