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barulho de fundo

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Qua | 19.06.24

A avó Lurdes

Maria Delgado Carvalho

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Todos temos avós, independentemente de os chegarmos a conhecer ou não. Avós maternos e avós paternos. Com mais ou menos relevância na nossa vida. Mais ou menos presentes. Uns marcam, outros nem tanto.


Tal como toda a gente, também eu tive uma avó materna - a avó Lurdes (que está na fotografia), um avô materno - o avô Chico (Francisco), uma avó paterna - a avó Conceição, e um avô paterno - o avô Manuel.
Conheci todos, menos o avô Manuel.

 

Quando me perguntam um cheiro da minha infância, as memórias remetem-me para a brilhantina de um avô inspirador, mas muito mais para o bolo acabado de fazer, de uma avó  altiva, elegante, exigente com os filhos e ainda mais com os netos. A minha avó Lurdes.

 

A minha avó Lurdes era pouco avó. Tinha o cabelo sempre acabado de sair da cabeleireira. Pintava os lábios e as unhas de rosa choc, andava sempre de saltos e nunca vestiu um par de calças.

 

Adorava tomar banho no mar, mas usava sempre uma touca para não desmontar o penteado. Era sempre a mais bronzeada. A mais elegante. A mais assídua.

A minha avó Lurdes fumava SG Gigante. Sabíamos sempre quais eram as suas beatas no cinzeiro. As com o filtro pintado a batom cor de rosa.

 

A minha avó Lurdes bebia sempre um copo de vinho às refeições. E tinha lugar marcado na cabeceira da mesa. Todos sabíamos disso. Ninguém o ocupava.

 

A minha avó Lurdes teve 7 filhos. Destes filhos, nasceram uma carrada de netos. Somos muitos. E, talvez por isso, tenha havido ligação com todos e não tenha havido ligação com nenhum. O meu irmão era o preferido. Dos rapazes, o mais velho.

A minha avó Lurdes era diferente, sem dúvida. No ser e no estar. Era mais bem-disposta do que carinhosa. Mais atenta aos filhos do que aos netos. Mais atenta aos rapazes do que às raparigas.

 

A minha infância também cheira a casa da avó, a flores do campo, a torradas com flora, a bolo acabado de sair do forno, a rissois de camarão, arroz de tomate e salada russa.


A casa da avó Lurdes cheira a saudades dos pais. Cheira a início de férias. Cheira a Zélia [a empregada interna da minha avó], que sem ser avó e sem ter idade para o ser, tantas vezes fez o seu papel. Na cozinha. Na dispensa. A fazer as camas e a arrumar os quartos. A passar a ferro.


A minha infância cheira a primos em casa da avó Lurdes. Cheira a buchos. A bicicleta na rua. A bilha de gás equilibrada nos pés. A gritaria. A medo de ser a última a adormecer numa casa que mais parecia um castelo.

 

Tive avós na minha vida, três. Avós pouco avós. Que nunca tiveram comigo as ditas conversas de avós. Nunca me ensinaram lições para e sobre a vida.

Mas não faz mal. Nem para eles, nem para mim.

Foi assim, porque assim tinha de ser. E foi tão bom na mesma.

Tenho saudades de cada um deles, com o que cada um me deu. Com o que fomos. 

Porque os avós não tem de ser. Têm de sentir e fazer sentir. E aí, tenho a certeza de que mesmo sem conversas de gente crescida, tive tudo o que tenho direito. Carisma.

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