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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

10.10.25

A felicidade do "quase"

    Gostamos do que está feito. O objectivo cumprido. Ir riscando a lista. O troféu do fazer-fazer. Há uma obsessão por chegar. Por concluir. Por estar lá. Mas o lá tem um problema. Costuma durar pouco. É o golo final do café, aquele que prometia o sabor perfeito, mas que já vem frio. É a fotografia tirada depois de meses e que não diz nada sobre o vazio de ter atingido o resultado. É a meta atingida. A casa decorada. O amor oficial.   O láé o fim. E o fim, por mais (...)
08.10.25

Não devemos poupar na realidade,

só nas palavras

  Há quem confunda tacto com omissão. Acha que ser cuidadoso é falar pouco. Esconder. Cortar pela metade. Como se a verdade fosse um bisturi e o silêncio, um penso rápido. Mas é o contrário. Poupar na realidade é empobrecer as relações. O que fere não é a verdade. É a forma como a atiramos.   Explicar é respeito. É o meio-termo entre o silêncio amedrontado e a franqueza em bruto. Andamos a fazer economia emocional. Como se cada conversa fosse uma factura. Mas o que (...)
06.10.25

O lugar vago na mesa,

o que acontece quando deixamos de aparecer.

  Há uma espécie de lei que rege as relações humanas. Se deixas de aparecer, deixas de existir no mapa mental dos outros. Não é maldade. Nem conspiração. É geometria. Quem não ocupa espaço, perde forma.   No início, estranha-se. Na semana seguinte, repete-se a ausência. Na terceira, já ninguém pergunta. Não porque não gostem de nós, mas porque a vida preenche os vazios com outras presenças. É como numa mesa posta, se um lugar fica vazio, ao fim de algum tempo já (...)
29.09.25

Normalidade,

não sabemos o que fazer com ela.

  Ainda é Setembro. As ruas ainda cheiram a férias interrompidas. As mochilas ainda rangem de novo. O calor durante o dia insiste em não arredar pé. Mas já estamos a falar da Black Friday. Já há anúncios de Natal embrulhados em Setembro. Já há quem marque ceias e troque mensagens sobre o que vai ser este ano. Estamos constantemente a atropelar o presente, como se ele fosse apenas o caminho para o próximo evento.   Vivemos em agenda. É como se tivéssemos assimilado o (...)
27.09.25

Quando for grande quero ser leitora

  Quando eu era criança, perguntavam-me o que queria ser quando crescesse. Houve uma fase em que disse astronauta. Outra em que quis ser mãe de sete filhos. E também houve o momento em que considerei seriamente ser patinadora. Mas havia uma resposta que nunca dei. Achava que não era legítima. Quando for grande quero ser leitora.   Não quero ser escritora, nem professora, não quero ser editora. Só ler. Ler como se lê um pão quente. Como se bebe água quando se tem sede. Como (...)
25.09.25

PALOP,

a porta de vidro que nos separa

  Há quem pense que emigrar começa no aeroporto. Que a aventura começa no adeus à família, no passaporte carimbado, no embarque para uma vida nova. Mas, na verdade, para muitos jovens dos PALOP, a verdadeira fronteira não é geográfica. É administrativa, silenciosa e tantas vezes invisível. A embaixada é o primeiro muro.   Não há sirenes. Nem (...)
24.09.25

Voyeurismo,

o ofício de espreitar

    Espreitar deixou de ser um acto furtivo. É uma rotina social. Não é preciso um buraco na parede nem cortinados mal fechados. Basta deslizar o dedo no ecrã. O voyeurismo já não é um desvio. É um exercício quotidiano com selo de normalidade. O curioso é que o condenamos em teoria. É feio admitirmos que gostamos de espreitar. Mas na prática fazemos dele um hábito tão banal quanto beber um café.   Porque espreitamos? A resposta é menos romântica do que gostaríamos. (...)
20.09.25

Os vícios são a cura para tudo,

menos para o vícios.

Diz-se que o álcool cura tudo, menos o alcoolismo. A frase serve de bússola para pensar num fenómeno maior. Os vícios em geral. Aquilo que parece anestesiar, é precisamente o que se torna a própria doença. E nunca estivemos tão mergulhados em vícios de fachada terapêutica como hoje.   O telemóvel. Um objecto que prometeu aproximação, mas que nos mantém em perpétua sede. Cada notificação é um golorápido. Não mata a sede. Estimula outra. Fingimos que é companhia. (...)
19.09.25

Refugiados,

quem são quando deixamos de os ver como vítimas.

    Há um erro recorrente na forma como falamos de refugiados. O de os tratarmos exclusivamente como vítimas. Sempre com o mesmo enquadramento. Fuga. Barcos. Tendas. Desespero. Um retrato com utilidade mediática, mas redutor. Congela pessoas complexas num instante de fragilidade. E pior. Esgota rapidamente a empatia pública. Quando alguém é apenas um problema, a tendência é querer afastá-lo.   Os refugiados não são pessoas a quem lhes falta algo. São pessoas que (...)
18.09.25

Sentir compaixão pelos próprios erros,

é praticável.

  Sentirmos compaixão pelos próprios erros parece óbvio. Mas não é. A compaixão pelo próprio erro não é propriamente um gesto poético. É um exercício concreto.  Duro. Iimplica desmontar a forma como aprendemos a lidar com os nossos erros. Poucos conseguem.   Crescemos a acreditar que errar é falhar. Fomos avaliados em testes escolares. Medidos por notas. Errar significava ficar abaixo da expectativa. Hoje em dia, carregamos essa herança. Quando tropeçamos, accionamos (...)