Desarrumação,
a forma visível do caos na nossa cabeça

Abrimos a porta de casa e a realidade fala mais alto do que gostávamos. Uma mesa entupida de papéis. Roupa em cima da cadeira. Loiça por lavar. Brinquedos espalhados. Objectos que já nem sabemos por que estão ali. O caos instalou-se devagar, mas está lá. E não se trata apenas da casa. A desarrumação é a forma visível do desalinho da nossa cabeça.
Não é preguiça. Nem falta de tempo. Nem sequer desorganização crónica. É um novelo de lã em forma de dia-a-dia. Acelerados e ocupados demais. E a cabeça reflecte isso. Quando já não tem forma de desatar, o corpo também não encontra lugar. E a casa transforma-se no reflexo directo desse caos.
Estamos permanentemente entre tarefas e no suspenso entre o que queríamos fazer e o que conseguimos, nasce o desalinho. E ele espalha-se. Uma coisa fora do lugar rapidamente se multiplica. Um canto da casa perdido torna-se regra. E a desarrumação começa a gritar.
Arrumar, nestas alturas, não é só uma questão de estética ou higiene. É reorganizar prioridades, reaver sentido. Estou aqui. Estou a tentar retomar o fio à meada. Mas isso custa. Obriga-nos a dar de caras com o que deixámos acumular. Objectos, decisões varridas para um canto, urgências que entretanto o mais certo é terem deixado de o ser.
Mas começar a organizar pode ser só isso: começar.
A cadeira do quarto que se tornou um cabide improvisado. A bancada da cozinha que abriga papéis que nada têm a ver com o jantar. Um caos que tem raízes. Cada objecto fora do lugar só pode ser mais uma pequena prova de algo que ficou por resolver.
Há quem diga que arrumar é terapêutico. Mas essa ideia passa a ser simplista se não percebermos por que se desarruma. Organizar o espaço é pôr coisas no sítio e devolver significado ao que usamos, ao que guardamos, ao que toleramos à nossa volta. Continua a ser mais fácil acumular.
Uma casa arrumada não é uma casa perfeita. É aquela em que cada objecto tem função. Arrumar é um exercício. Um gesto concreto que talvez não devesse esperar pelo fim de semana ou pelas férias. Podemos sempre começar pequeno.
E começar a arrumar é só isso: começar.