A felicidade é uma coisa com cheiro

A felicidade é uma coisa com cheiro. Cola-se ao corpo. É quando o dia começa sem urgência. Quando se pode estar. Sentar. Saborear o café devagar. É não fugir de nada. Nem de nós. Nem dos outros. Nem do fim do dia.
É aquela meia hora em que o mundo não pede nada. E nós também não. Quando conseguimos estar connosco sem nos aborrecermos. Quando já não precisamos de barulho. De gente. De distracções para nos sentirmos vivos. Há uma leveza nesta forma de felicidade que só chega depois dos 40. Talvez mais tarde.
Felicidade é quando alguém nos lê o pensamento sem falarmos. Um levantar de sobrancelha que nos faz rir. Sabemos exactamente o que aquilo quer dizer. Porque a intimidade é das formas mais robustas de felicidade. E não precisa de velas aromáticas nem legendas. Basta que alguém nos conheça e fique.
Também é quando rimos à gargalhada com os nossos filhos. Ou com os filhos dos outros. E nos esquecemos da nossa profissão. Dos nossos problemas. Do nosso peso e da nossa idade. Durante trinta segundos. Felicidade é sempre uma interrupção boa.
É um telefonema que não esperávamos. Um elogio que não pedimos. Uma mensagem às onze da noite de alguém que se lembrou de nós sem motivo. Felicidade tem mais a ver com ser lembrado do que com ser celebrado.
Às vezes, é encontrar uma camisola velha com cheiro a nostalgia. Um cheiro que aquece. Porque felicidade também é isso: um aperto que não rasga. É darmos conta de que já não aceitamos o que antes tínhamos de tolerar. Que não nos sujeitamos por tão pouco. Um respeito por nós tranquilizador.
É quando conduzimos sem música porque estamos a gostar do silêncio. Quando somos a nossa única companhia e isso deixou de ser desconfortável. É felicidade. Estarmos connosco e não querermos mudar de canal.
A felicidade não tem música de fundo. Nem confettis. Mas tem cheiro. A bolo no forno. A cabelo lavado. A roupa acabada de estender. Felicidade são coisas pequenas que não se reduzem a gratidão com filtro pastel. São factos. Coisas que se tocam. Que se repetem. Que se reconhecem.
Felicidade não é euforia. É quando o habitual se torna confortável sem ser entediante. Quando o que temos basta, mesmo que queiramos mais. É uma espécie de confiança tranquila em nós e na vida. o mais raro e valioso que há. E não se compra.
No fim, talvez seja isto: ser feliz é estar aqui neste momento, sem desejar estar noutro. Nada mais. Mas também… nada menos.