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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

28.10.25

A palavra é de prata

e o silêncio é de ouro.


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A palavra é de prata e o silêncio é de ouro. Repetimos esta frase como quem cita um provérbio antigo, sem grande atenção ao que ela exige de nós. Mas, se pararmos para pensar, talvez o ouro não esteja no silêncio em si, mas no espaço que ele cria.

 

Vivemos num tempo em que tudo fala. As notificações piscam. As vozes opinam. Os podcasts analisam. Os vídeos explicam. A palavra deixou de ser prata. Alumínio, talvez. Leve. Descartável. Reciclada até à exaustão. Fala-se porque há um microfone. Uma câmara. Um público. E no meio deste ruído dourado, o silêncio perdeu estatuto e tornou-se suspeito.

 

Quem fica calado parece desinteressado. Mas talvez o silêncio seja apenas um intervalo necessário entre o sentir e o dizer. É no silêncio que a palavra amadurece. Ganha peso. Encontra a sua medida. Há palavras que nascem cruas. Ditas à pressa. E que depois se arrependem de existir. Outras ficam a marinar no silêncio. E quando finalmente chegam, chegam limpas, precisas, inteiras.

 

O ouro do silêncio é esse tempo de decantação. O espaço onde o pensamento se alinha e o impulso se transforma em consciência. É aqui que se distingue o que precisa de ser dito do que só precisa de ser entendido. Mas há mais. O silêncio não é apenas ausência de som. É atenção. É o momento em que o outro fala e não preenchemos o intervalo com o nosso ego. É quando escutamos, não para responder, mas para compreender. É quando deixamos o ar pousar entre as frases, sem a urgência de ter a última palavra.

 

O silêncio é o que resta quando tudo o resto já se gastou. É o fundo de ecrã da alma. O lugar onde se ouve o próprio pensamento sem eco. É o remédio para a pressa com que falamos, para a ansiedade de sermos compreendidos, para o vício de explicar tudo. Talvez por isso o ouro do silêncio brilhe mais em tempos de ruído. Porque é raro. Porque não se encontra em qualquer lado. Porque é preciso escavar fundo em nós para o encontrar.

 

Falar é importante. Mas saber quando não falar é sabedoria. E a sabedoria, hoje, é o único metal precioso que ainda nos falta extrair.

 

 

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