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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

01.08.25

A rotina é matreira


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A rotina nunca se apresenta como vilã. Disfarça-se de equilíbrio, ordem, competência. E auto-justifica-se. Acordamos à mesma hora, seguimos os mesmos trajectos, cumprimos os mesmos rituais diários. Porque, alegadamente, isso permite-nos funcionar melhor. Há eficácia no automatismo. Há conforto na repetição. Mas há também uma erosão lenta que não se anuncia com alarmes. A rotina mina. Faz-se de gestos pequenos e inofensivos, mas o efeito acumulado é uma amputação progressiva.

 

Chamamos-lhe estabilidade, quando na verdade é uma estagnação mascarada. A rotina, matreira, oferece uma aparência de vida funcional enquanto suga a vitalidade. E é preguiçosa porque embora seja cheia de tarefas, não exige de nós verdadeira atenção nem risco. Viver em piloto automático não é viver com menos esforço. É viver com menos consciência.

 

Há uma produtividade enganadora no repetido. Os dias enchem-se de listas, de responsabilidades, de entregas. Mas o tempo está sempre a fugir, e não é por falta de relógio. A rotina doseia o estranho com a mesma competência com que um anestesista doseia a medicação. Mantém-nos funcionais. Acordados o suficiente para produzir. Desligados o suficiente para não questionar.

 

O maior truque da rotina é esta ilusão de utilidade. Há muito menos do que julgamos. Organiza, sim, mas empobrece. Garante previsibilidade, mas sufoca possibilidade. E faz isso com uma elegância discreta. Há apenas o peso morno dos dias todos iguais. E um desconforto difuso que não sabemos bem nomear.

 

Pior ainda. A rotina ensina-nos a adiar. A acreditar que existe um tempo ideal, mais à frente, onde tudo será diferente. Depois das férias. Quando os miúdos crescerem. Assim que este projecto acabar. E assim a vida vai sendo vivida sempre em espera. Porque o presente, engolido pela repetição, parece provisório.

 

A rotina é uma forma de resistência passiva à mudança. Ela protege-nos do desconforto que a transformação exige. Porque transformar implica falhar, desorientar, perder tempo. A rotina, pelo contrário, é um abrigo onde tudo parece estar sob controlo. Mas esse controlo sai caro. Custa-nos a capacidade de ouvir, de adaptar, de inventar.

 

Quando vivemos demasiado dentro da rotina deixamos de olhar para fora. Deixamos de reparar no que está a mudar, porque só vemos o que já conhecemos. E quando o mundo muda [como está sempre a mudar]  não chegamos a tempo. A rotina, com a sua promessa de estabilidade, acaba por ser um risco. Um risco lento, invisível, que só percebemos quando o sentido se perde.

 

Por isso, é preciso contraria-la. Não com uma revolução caótica, mas com pequenas incisões diárias. Interrupções. Obstáculos. Coisas que não fazem sentido aparente, mas obrigam à presença. Mudar o caminho. Fazer silêncio onde há barulho. Ouvir sem prever a resposta. Fazer perguntas que não tragam respostas imediatas.

 

A rotina não se combate com férias. Combate-se com interrupções lúcidas e regulares. Com decisões pequenas que restituem ao dia a qualidade do acontecer. O objectivo não é eliminar a rotina, porque a rotina é uma ferramenta,  mas devolvê-la ao seu lugar.

 

Só quando deixamos de nos esconder atrás da agenda é que a vida volta a ter densidade. Há uma diferença entre passar os dias e vivê-los. A primeira é compatível com a rotina. A segunda não. Viver exige fricção. E isso a rotina, matreira, fará tudo para evitar.