A vergonha é salgada
A vergonha sempre me pareceu um tempero. Não daqueles que se escolhem, entre o pimentão e a noz-moscada, mas daqueles que aparecem sozinhos e estragam o prato. Por isso é que a vergonha é salgada. A minha, pelo menos. É um excesso. Uma pitada que nunca é pitada. É despejada. Generosa. Assertiva demais. É o sal que arruína a refeição antes de nos sentarmos à mesa.
Quando pensamos em vergonha, pensamos em corações acelerados. Caras que aquecem. Memórias que preferíamos não ter. Mas a essência não está no frio na barriga. Está no sabor. A vergonha tem gosto. E é quase sempre o mesmo. Forte. Mineral. Difícil de engolir. É salgada e não amarga. Ou ácida. Ou até doce. Porque o sal conserva. As coisas salgadas duram. E a vergonha, quando chega, instala-se. Conserva-se dentro de nós muito para além do prazo de validade dos acontecimentos. E para uma emoção tão primitiva, é fascinante.
Aos trinta e muitos, quarenta e tal, cinquenta a aproximar... já percebemos que a vergonha mais marcante não vem das grandes derrotas públicas. Vem dos pequenos desajustes. Do ridículo discreto. É a gargalhada no momento errado. O nome trocado. A resposta automática que não devia ter sido aquela. O comentário despropositado que fez alguém franzir o sobrolho. Aquelas pequenas falhas de vida adulta que, vistas de fora, não contam para nada. Mas vistas de dentro, arruínam a refeição, antes de nos sentarmos à mesa.
A vergonha é salgada porque lembra suor. Exposição. O corpo a denunciar aquilo que tentamos esconder. E, como qualquer coisa salgada, fica na língua. Repetimos mentalmente o momento. Mastigamos a cena como um peixe mal cozido. Não há digestão rápida para este tipo de memória. No entanto, há uma dimensão menos trágica que vale a pena reivindicar. A vergonha é um excelente medidor de civismo. Um sinal de que ainda temos calibrado o sentido de pertença. De cuidado. De vínculo.
No fundo, a vergonha é o aviso sonoro do nosso sistema interno a dizer que queríamos estar à altura, mas tropeçámos um bocadinho. E tropeçar é normal. É biográfico. E a vergonha, quando é saudável, faz-nos ajustar a postura. A voz. A pressa. Ensina-nos a existir no mundo sem ocupar mais espaço do que o necessário. As pessoas que sabem reconhecer as suas vergonhas são também as que menos constrangem os outros.
Mas há também a vergonha desajustada. A que se transforma em excesso de sal. A que queima as papilas e não nos deixa saborear nada porque se mete em tudo. É a vergonha herdada. A que nos educaram a ter. A vergonha do corpo. Da opinião. Do erro. Do riso alto. Da carreira que não impressiona. Das escolhas que não se explicam facilmente. Essa vergonha não é salgada. É salmoura. Uma imersão constante que nos tira a frescura.
A vergonha é salgada, sim. Mas somos nós que decidimos se fica como tempero ou como mar. Se fica como um aviso ou como uma imobilização. Se é para saborear ou para nos afogar. Curiosamente, quando olhamos para trás percebemos que grande parte das coisas que nos envergonharam eram pequenas demais. A vergonha distorce a escala. Amplia o que é mínimo. Faz-nos sentir enormes numa plateia que não existe.
Não há drama. Só um reforço de que a vergonha é um ingrediente inevitável da vida adulta. E como tudo o que é inevitável, o segredo está na dose. O suficiente para nos manter alerta. Não o bastante para nos amordaçar. No fim, a vergonha também é uma forma de sal da terra. Lembra-nos que somos humanos. Que falhamos. Erramos o tom. O passo. O timing. E que está tudo bem. Não é bonito, nem inspirador, nem romântico. É só verdadeiro.
E é isso que devemos procurar. Uma vergonha que tempera, mas não destrói. Uma vergonha com sabor a realidade. Porque a realidade, quando é bem vivida, dispensa açúcar mas aguenta um pouco de sal.
