As pessoas dão o que são.
E a mais não serão obrigadas?!
Verdade definitiva, com um ar de sentença final. Como se fechasse todas as perguntas que ficaram sem resposta. As pessoas dão o que são. Uma frase que parece simples. Quase óbvia. Mas dentro dela há um mecanismo curioso: alivia-nos e responsabiliza-nos ao mesmo tempo. É confortável, quase macio. Agrada à nossa necessidade de fechar temas sem mexer demasiado no desconforto.
Mas vale a pena olhar mais de perto. Sem dramatismos, mas com a frieza lúcida que às vezes falta no dia a dia. A maior parte das pessoas não sabe ao certo o que é. Padrões herdados e pressa de sobreviver emocionalmente. Se damos o que somos, vamos oferecer fragmentos. Do que aprendemos por imitação. Do que interiorizámos sem questionar. Do que nos protegemos para não sentir.
Damos migalhas e chamamos-lhes limites. Damos silêncio e chamamos-lhe paz. Damos pressa e chamamos-lhe eficiência. Damos distância e chamamos-lhe autonomia. Damos presença a meio gás e chamamos-lhe esforço. Não é maldade. É fidelidade ao mapa interno que carregamos sem nunca o termos redesenhado.
Há quem dê pouco porque aprendeu a vida inteira que pouco é seguro. E há quem dê demasiado porque confundiu oferecer com garantir que não será deixado para trás. Cada um distribui o que tem, mesmo que nem saiba que podia ter outro tipo de moeda de troca.
E a mais não serão obrigadas é a parte mais desconcertante. Não porque seja falsa, mas porque funciona como um travão moral. Colocamo-la no final de discussões e decepções como quem pousa um ponto final. E está certo. Exigir o impossível é uma forma elegante de crueldade.
Só que o ponto essencial, normalmente ignorado, é outro: nós também não somos obrigados a ficar onde só se recebe aquilo que o outro é. A frase costuma ser usada para justificar a limitação alheia, mas raramente é aplicada para orientar a nossa própria decisão de não permanecer num território de escassez. Sim, as pessoas dão o que são e nós escolhemos o que aceitamos. E isto já não é sobre elas. É sobre nós.
É aqui poderiamos descambar para um moralismo cansado sobre amor-próprio, limites ou auto-ajuda. Mas não é preciso. Basta observar as relações. Todas. Profissionais. Pessoais. Familiares. Casuais. São trocas contínuas. Não há contrato de perfeição, mas há uma estrutura fundamental. A reciprocidade suficiente. Não é contar gestos. É perceber se a troca mantém os dois minimamente inteiros.
Quando alguém dá só tensão, ficamos crispados. Quando dá só disponibilidade infinita, ficamos em dívida. Quando dá ausências, ficamos em espera. Quando dá versões editadas de si, ficamos confusos. E quando dá tudo sem filtro, ficamos sufocados. O equilíbrio está no dar sem esgotar. Receber sem exigir. Sair sem destruir. E sobretudo não tentar corrigir a natureza dos outros para que caibam no que desejamos que sejam.
E o que é que eu faço com aquilo que ela me deu? Aceito? Agradeço? Devolvo? Recuo? Reposiciono-me? Vou-me embora? Porque se os outros não são obrigado a dar mais, nós também não somos obrigados a ficar a receber menos. Descompliquemos. Ninguém tem culpa por não saber dar melhor. Mas todos temos responsabilidade em aprender a dar de outra forma. Ou a escolher melhor para quem damos.
As pessoas dão o que são. E a mais não serão obrigadas.
Mas nós somos obrigados a viver com as consequências daquilo que aceitamos. Isso, sim, diz quem somos.
