Burca,
o véu entre a lei e o visível.

Portugal. Proibição ou não do uso da burca em espaços públicos.
Não sabemos lidar com o que não conseguimos decifrar à primeira vista. Rosto. Intenções. Silêncios. Somos um povo que precisa de ver a cara do outro para medir o tom de voz, a ironia e o perigo. Neste contexto, a burca é uma afronta cultural. O incómodo do não dito em praça pública.
Existe uma contradição. E como todas as contradições, revela mais sobre nós do que sobre quem a usa. Queremos viver num país livre, plural, tolerante, mas continuamos a desconfiar daquilo que não se parece connosco. Damos aulas de inclusão, mas aprovamos leis para excluir os símbolos que não entendemos. Chamamos-lhe segurança, quando o que sentimos é apenas desconforto.
A verdade é que há algo de profundamente português nesta vontade de ver a cara de toda a gente. A mesma curiosidade que nos faz comentar o vizinho. Especular sobre o colega. Espreitar a janela do prédio em frente. O país das rendas nos cortinados nunca tolerou bem o mistério. Queremos a transparência do outro, mas guardamos a nossa.
E enquanto se discute a burca, continuamos todos de máscara. Não de pano, mas de pose. A máscara do politicamente correcto. Da moral irrepreensível. Da liberdade selectiva. Falamos de libertar mulheres que não pediram para ser libertadas e esquecemo-nos de perguntar se, no meio disto tudo, não estamos nós a prender alguém à nossa ideia de liberdade.
A burca, ou o véu integral, não é apenas um pedaço de tecido. É também um gesto simbólico. Uma fronteira entre o que se mostra e o que se oculta. Entre o indivíduo e a comunidade. Proibir esse véu é decidir legislar sobre aquilo que não se vê. E legislar sobre o invisível obriga-nos a perguntar o que estamos realmente a querer ver?
A proibição vai passar, claro. E depois? Vamos sentir-nos mais seguros? Vamos ver melhor o mundo, agora que o rosto destas pessoas passa a estar exposto? O problema não é o tecido, mas a nossa leitura dos factos. E essa, ao contrário da burca, não se tira por decreto.