Cansamo-nos de esperar,
mas não nos cansamos de sonhar.

A espera é um lugar desconfortável. Não tem portas nem janelas. Não tem horizonte. É um espaço suspenso. Nada avança nem recua. O corpo cansa-se sem se mover. Esperar é um parêntesis. É por isso que nos fartamos.
O século passado ensinou-nos a esperar. Pela carta que vinha no correio. Pelo telefonema. Pela fila no banco. Este século prometeu acabar com isso e cumpriu. Hoje, a espera está desmoralizada. Quase extinta. Cansamo-nos de esperar e matamos a espera com atalhos. Mas não nos cansamos de sonhar. Porque o sonho não é parente da espera. Não é passivo. Sonhar é desenhar cenários. Reescrever narrativas. Construir possibilidades. O sonho é um treino do futuro.
A espera faz-nos reféns do tempo. O sonho emancipa-nos. Na espera, somos prisioneiros do que não controlamos. No sonho, somos arquitectos do que não existe. E é curioso: quanto mais nos cansamos da espera, mais precisamos de sonhar. Porque o imediatismo em que vivemos atrofia a nossa imaginação. A impaciência mata a espera, mas também encurta a visão. Por isso, sonhar tornou-se resistência. As sociedades que aprendem a esperar constroem estabilidade. As sociedades que sabem sonhar constroem futuro.
E nós, gerações comprimidas entre o analógico e o digital, entre a lentidão dos nossos pais e a urgência dos nossos filhos, estamos no limiar das duas forças. Herdámos o cansaço da espera e cultivámos a obstinação do sonho. E o problema não é termos deixado de esperar, mas confundirmos sonho com consumo. O mercado transforma-o catálogo. E nós, distraídos, aceitamos.
É por isso que continuamos a sonhar. Mas de forma mutilada. Sonhamos pequeno. Sonhamos rápido. Dentro de prateleiras já montadas. Esquecemo-nos que a essência do sonho é radical. É imaginar o que não existe. E não apenas acelerar o que já está à venda. Cansamo-nos de esperar. Mas o risco não é a ausência da espera, mas a superficialidade do sonho. Porque, se o sonho se reduzir ao desejo imediato, perde a sua potência transformadora.
O convite, então, é resgatar o sonho como acto criativo. Sonhar sem pressa, não como quem espera, mas como quem projecta. Sonhar não para ter, mas para ser. Sonhar não o próximo atalho, mas a próxima travessia. Esperar cansa. Sonhar alimenta. Mas só quando o sonho não cabe num carrinho de compras.