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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

21.11.25

Casas cheias de "um dia".

Os acumuladores


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Acumuladores. Pessoas que vivem rodeadas de um diaUm dia vão precisar daquele cabo que já não encaixa em aparelho nenhum. Um dia a tampa sem caixa pode vir a dar jeito para tapar qualquer coisa que não se sabe bem o quê. Um dia vão ter tempo para colar a asa daquela chávena que lascou em 2014.
Um dia, sempre um dia.

 

São acumuladores funcionais. Pessoas que não vivem entre ruínas, mas entre vestígios de intenções. Que carregam um tipo de peso que lhes ata os gestos e adia decisões. Guardam porque nunca se sabe. Um nunca se sabe que vai enchendo gavetas, prateleiras, sótãos. A cabeça.

 

A casa deles tem sempre uma porta que não se abre totalmente por causa de um saco com coisas para ver mais tarde. Há sempre uma caixa que não se mexe porque é para organizar. Um armário onde reinam cabos, manuais, peças soltas, tampas sem panela, panelas sem tampa, frascos vazios. Podem dar jeito. T-shirts desbotadas que já viram melhores décadas.

 

O objecto deixa de ser apenas objecto. Ganha uma espécie de estatuto. Deitá-lo fora é falta de carácter: É desperdiçar. Abdicar de um futuro hipotético onde, por artes do destino, aquilo será exactamente o que vai fazer falta. E então guardam. Guardam em nome de uma possibilidade. A ideia de faltar pesa mais do que o incómodo do excesso.

 

Mas cada objecto em repouso ocupa um canto de preocupação. Cada depois acumula-se. E os dias ficam cheios de pendentes que não se resolvem porque não são urgentes. Mas também não são insignificantes. São incómodos silenciosos.

 

Ao contrário do que se possa pensar, o acumulador não é desorganizado. Ele sabe exactamente onde está tudo. Sabe qual a caixa com os parafusos. Qual o saco com as roupas para aproveitar. Qual a gaveta com os carregadores. Só não sabe quando terá coragem de escolher. Guardar é uma forma de adiar.

 

O hábito de guardar não é sobre coisas. É sobre medo. Medo de precisar. Medo de perder. Medo de decidir.
Medo de aceitar que a vida flui. Que os objectos têm ciclos. Que há coisas que acabam e outras que simplesmente deixam de fazer sentido.

 

Há casas que parecem prontas para todas as eventualidades, menos a mais importante: viver. Porque viver implica desprendimento, selecção, risco. Implica assumir que não estaremos preparados para tudo e que isso é normal.

 

Quando se faz finalmente uma limpeza a sério, das que pedem um saco grande e determinação, a sensação é sempre a mesma. Uma leveza que se estranha. É como se o espaço respirasse. Como se, de repente, houvesse mais chão. Mais ar. Mais futuro. Cada objecto que sai é uma decisão tomada. Cada decisão tomada é uma energia recuperada. Ganhar espaço é ganhar vida.

 

Sim, pode ser que um dia precisem daquela coisa que deitaram fora. Claro que pode. Mas, nessa altura, também podem resolver isso sem dramas. Improvisando. Descobrindo que afinal não era assim tão necessário. O problema não é guardar uma coisa ou outra. O problema é viver num eterno um dia, quando a vida acontece hoje.

 

O importante não é aquilo que eu nem sei se vou precisar. O importante é libertar espaço para aquilo que realmente importa.

 

 

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