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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

23.10.25

Conversas,

o espelho invertido.


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Há um equívoco persistente na forma como vivemos as conversas. Acreditamos que os outros nos estão a ver. Falamos. Sorrimos. Gesticulamos. Há sempre uma pequena câmara acesa. Uma espécie de vigilância interior a avaliar o que o outro estará a reparar. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, o outro não vê o que pensamos que ele vê. Pior. Ele vê-se a si próprio. Raramente nos está a ver a nós.

 

Vê o reflexo de si próprio através de nós. Uma espécie de eco do seu estado de alma. Das suas inseguranças. Vontade de ser ouvido. É como se estivéssemos sempre a falar através de um espelho que deforma a imagem. Cada um vê-se no outro. E quase ninguém vê o outro em si.

 

As conversas presenciais, cara a cara, em que o corpo também fala, são um conjunto silencioso de percepções desalinhadas. De um lado, alguém está a tentar regular a própria imagem. Do outro, alguém está a tentar interpretar essa imagem. E entre estes dois movimentos, o de disfarçar e o de projectar, perde-se quase toda a essência.

 

É curioso, acreditamos que os outros reparam nas nossas falhas, mas no que eles realmente reparam é na emoção que as nossas falhas provocam neles. Mas a nossa auto-avaliação é sempre um retrato em espelho. Centrada no que achamos que estamos a emitir. Não no que realmente chega. 

 

Vivemos saturados de auto-análise e cegos para o essencial. Estamos demasiado concentrados em nós para  observarmos os outros com detalhe. E vice-versa. Enquanto falamos, também os outros estão a preparar a resposta. A auto-avaliar-se. Cada um dentro da sua bolha de desempenho.

 

É por isso que há tão poucas conversas autênticas. Porque quase nunca há dois olhares voltados para o mesmo ponto. Quando o outro fala, vemos o que as suas palavras fazem em nós. Quando falamos, tentamos imaginar o que as nossas palavras fazem no outro. E é nesse cruzamento imperfeito que as conversas acontecem.

 

E no entanto, há momentos raros.Tão raros que ficam gravados. Em que a sintonia acontece. 
Nesses instantes, o olhar deixa de ser filtro e passa a ser encontro. Mas logo depois voltamos ao habitual. Cada um preocupado com o que transmite. Com o que aparenta. Com o que o outro estará a pensar. Voltamos à ilusão de que estamos a ser observados, quando na verdade somos apenas cenário.

 

No fundo, é um alívio. Saber que não somos o centro da atenção de ninguém. Nem sequer durante uma conversa.
Somos um reflexo momentâneo. Um meio para que o outro se veja um pouco mais, ainda que não saiba disso. E se aceitarmos essa condição, falamos com mais leveza. Não para impressionar, mas simplesmente para estar.
Porque só quando paramos de tentar ser vistos é que, por um segundo, nos tornamos visíveis.

 

 

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