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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

26.11.25

Dar graças à vida,

por tudo.


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Dar graças à vida, por tudo. Não é um daqueles quadros do Pinterest. Mas até podia vir com filtros sépia. Montanhas ao fundo. E aquela respiração de quem faz pilates numa sala com cheiro a lavado. O problema não é o que dizemos, mas como o usamos. Dar graças, tornou-se decoração. E quando vira decoração, não serve para nada.

 

O tudo inclui as partes feias. As chatices. Os dias com nódoas. E é exactamente aí que o dar graças dá trabalho. E ganha utilidade. A gratidão como arma. Não como almofada. Porque usar a gratidão como almofada emocional, uma coisa macia onde encostar a cabeça quando a vida está simpática, não exige esforço. Nem nos reorganiza por dentro.

 

Prefiro pensar na gratidão como uma arma táctica. Afiada. Directa. Práctica. Uma maneira de não nos deixarmos domesticar pelo que nos acontece. Porque quando dizemos dou graças, estamos a assumir comando. A declarar com uma sobriedade activa que aquilo que nos acontece é material. Matéria-bruta. E que somos nós quem lhe decide o uso. É quase uma insolência calma. Obrigada vida!

 

Há episódios que ninguém quer agradecer. Muito menos incluir no tal tudo. Outros tantos há, que consideram um masoquismo quase espiritual. Mas não é. É método. Porque agradecer não é gostar. Não é achar bonito. Não é romantizar o incómodo. É reconhecer que aquilo existe. Ao reconhecê-lo, passamos a ter uma palavra a dizer. Uma escolha a fazer.

 

É uma ferramenta de precisão. Remove dramatismos. Dissolve a resistência inútil. E devolve-nos uma clareza que normalmente só aparece depois de muitos estragos. Mas a gratidão tem efeitos secundários. Aliás, como quase tudo na vida. Na verdade, deixa de haver lixo. Nada é desperdiçado.

 

O que corre bem, alimenta. O que corre mal, ensina. O que confunde, obriga a redefinir. O que dói recalibra. O que irrita mostra limites. E aquilo que se perde abre espaço. A gratidão é uma forma de economia interna. Zero desperdício emocional. Nada vai para o caixote. Tudo entra no processo de compostagem. E, como na compostagem, aquilo que era desconforto transforma-se em solo fértil.

 

Dar graças não é aceitar. É escolher. Há uma confusão recorrente: achar que agradecer é resignar-se. Pelo contrário. Agradecer é só a primeira etapa da recusa activa. Agradeço. Olho de frente. Entendo a forma. Decido o que faço com isto. É um ciclo de assertividade suave. Mas implacável. Até porque quem não agradece, luta às cegas. Quem agradece, luta informado.

 

Ser funcional, não é mais do que ter uma capacidade discreta de assumir o que a vida nos manda. Sem fazer birra existencial. Sem dramatizar a meteorologia que nos vai na cabeça. E também não se refugiar em discursos acolchoados. Dizer dou graças, por tudo é assumir esse lugar. Não porque a vida é maravilhosa, mas porque a alternativa é reagir eternamente, como se cada acontecimento fosse uma tempestade moral.

 

O mundo não é feito para se ajustar aos nossos planos. Os nossos planos é que têm de saber mexer-se no mundo. Portanto, dar graças à vida, por tudo não é espiritualidade barata nem optimismo sintético. Poderá ser inteligência emocional sem açúcar. É pegar no que acontece [reste ou não preste] e integrar num sistema interno que funcione a favor. Nunca contra.

 

Dar graças, é olhar para a vida com a sua desarrumação natural. Trouxe-me isto. Eu trato do resto. A forma menos piegas. Mais pragmática. Mais criativa de continuar a avançar.

 

 

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