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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

27.10.25

É melhor do que nada,

ou não.


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É melhor do que nada. Uma frase que parece inofensiva, mas que é uma pequena armadilha de resignação. Soa prática. Madura. Sensata. Mas o disfarce é controverso. Por trás dela vive uma cultura de aceitação do mínimo. O elogio do pouco. O aplauso ao quase. A normalização da mediocridade disfarçada de gratidão.

 

Aprendemos a dizer É melhor do que nada quando o dinheiro não chega. Quando o amor não preenche. Quando o tempo livre é escasso. Quando a amizade é morna. A frase sai leve, mas o efeito é corrosivo. Porque cada vez que a dizemos, um pedaço da nossa exigência acomoda-se e o cérebro grava.

 

E o problema é precisamente esse. O basta. O ponto onde a ambição se rende. Onde a vontade se cala. E o instinto de superação adormece. Humildade? Talvez. Não sei. Na verdade, acho que é apenas uma forma elegante de desistir.

 

Ser grato pelo que se tem é uma virtude. Mas confundir gratidão com conformismo é um erro. Talvez o maior. A gratidão olha para o que existe e reconhece valor. O conformismo olha para o que falta e decide que já não vale a pena tentar. Uma coisa é respirar fundo e agradecer o copo meio cheio. Outra, é achar que meio copo é tudo o que a vida tem para oferecer.

 

É melhor do que nada é o lema de quem deixou de exigir consistência. De quem aceita o que não acrescenta. não desafia. Rotinas que não inspiram. É o lema dos que já não esperam mais nada de si nem dos outros. Um suspiro cansado dos que confundem estabilidade com imobilidade.

 

Vivemos numa época que idolatra o bom o suficiente. Produtos que dão para o gasto, pessoas que até são boas, resultados que servem. E, enquanto isso, as possibilidades morrem de tédio. Porque a excelência, o ímpeto, o desejo de mais, não o material, mas o mais vital, são substituídos pela conveniência e pelo medo de perder o pouco que se tem.

 

Mas o pouco, quando se aceita sem luta, é o início do nada. É o prelúdio da apatia. O berço do conformismo. O anestésico da vida plena. Não é preciso ser ingrato para recusar migalhas. É preciso ser lúcido. Porque gratidão sem ambição é rendição.

 

Dizer É melhor do que nada é aceitar uma cadeira partida porque ainda dá para sentar. É tolerar uma relação vazia porque pelo menos há alguém. É aguentar um trabalho medíocre porque há contas a pagar. Tudo isso pode ser verdade. Mas há uma diferença abissal entre aceitar uma fase e adoptar um lema.

 

O que nos falta hoje não é esperança. É exigência. A coragem de desejar mais. Não mais coisas, mas mais verdade, mais sentido, mais inteireza. A ambição saudável não é arrogância, é o motor que separa o vivo do resignado.

 

O mundo está cheio de pessoas que se contentaram. E cada uma delas contribui, sem querer, para a entropia geral. Essa lenta erosão da vitalidade humana. Porque quem se contenta com pouco perde a capacidade de inspirar, de contagiar, de criar movimento.

 

Talvez fosse mais honesto trocarmos a frase. Do É melhor do que nada, poderíamos começar a dizer É menos do que devia ser. A primeira conforta. A segunda desperta. Porque a vida não se constrói sobre o que é melhor do que nada. Constrói-se sobre o que é digno. Inteiro. Desafiante. Mesmo que demore. O que é melhor do que nada raramente é o que vale a pena.

 

Agradecer o que se tem pode ser maturidade. Exigir mais é lucidez. Aceitar o mínimo é desistir em voz baixa. E não há desistência mais triste do que aquela que se disfarça de contentamento.

 

 

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