Em defesa dos que não gostam do Natal,
porque eu adoro.

Há pessoas que não gostam do Natal.
Não é que odeiem luzes. Nem que tenham tido uma infância infeliz. Nem que sejam amargas por defeito. Simplesmente não gostam. E isso continua a ser visto como uma falha.
Vivemos numa sociedade que aceita quase tudo. Desde que venha acompanhado de entusiasmo. O Natal é um desses territórios onde a adesão é obrigatória. Não gostar é suspeito. É como dizer que não se gosta do mar ou de cães. Quando assim é, algo passa imediatamente a ser analisado.
Mas talvez seja altura de retirar o Natal do pedestal emocional onde o colocámos e tratá-lo como aquilo que é. Uma construção cultural forte. Repetida. Eficaz, mas não universal. Quem não gosta do Natal não é contra a família. Nem contra a generosidade. Nem contra a pausa. É contra a encenação. Contra a coreografia consumista. Contra a obrigação.
O Natal moderno é um evento de gestão. Gere expectativas. Afectos. Presenças. Gere ausências. É uma época que exige logística emocional apurada. Quem se visita. Quem fica de fora. Quem se lembra. Quem se tolera. Há quem aprecie este exercício. Há quem não.
Não gostar do Natal pode ser apenas uma forma de honestidade. O excesso de estímulos, de ruído, de mensagens optimistas em série. A música que insiste. As frases feitas. A ideia de que, durante alguns dias, todos devemos suspender a complexidade da vida para caber numa narrativa simples de união e alegria. Mas há pessoas que não funcionam bem em narrativas simples.
Quem não gosta do Natal costuma preferir a continuidade à excepção. Não precisa de um dia específico para ser generoso. Atento. Ou próximo. E desconfia de sentimentos concentrados num calendário. Existe também uma recusa silenciosa ao sentimentalismo obrigatório. A ideia de que há emoções certas para cada data é estranha. A alegria não obedece a agendas. E a nostalgia não pede autorização ao mês de Dezembro.
Defender quem não gosta do Natal é defender o direito a uma relação com o tempo. Sem picos artificiais. Sem promessas simbólicas. Sem a pressão de aproveitar porque é suposto. E curiosamente, muitos dos que não gostam do Natal são pessoas consistentes. Fiéis aos seus ritmos. Menos disponíveis para euforias colectivas. Mais atentos ao que se passa nos dias comuns. Não precisam de embrulhar afectos em papel brilhante.
Talvez o maior problema não seja não gostar do Natal. Talvez seja a incapacidade colectiva de aceitar que nem todas as experiências humanas são universais. Que aquilo que conforta uns pode cansar outros. Que a recusa também é uma forma legítima de estar.
Não gostar do Natal não é birra. Pode ser lucidez. Recusar a ideia de que a vida precisa de um cenário especial para fazer sentido. Preferir o silêncio ao coro. Escolher a coerência em vez da celebração automática.
E goste-se ou não, é uma posição bastante razoável.