Este Verão, os meus filhos vão aborrecer-se,
e ainda bem!

Este Verão os meus filhos não vão aprender chinês. Nem vão construir robôs. Nem fazer compostagem. Não vão para campos de férias. Nem para nada que tenha início às 9h e fim às 18h00, com lanche incluído. Este verão os meus filhos vão estar no mesmo sítio. O tempo todo.
Vão acordar tarde demais e às vezes cedo demais. Ficar horas a olhar para o chão. Inventar jogos que só eles percebem. Reclamar do calor. Esconder-se no silêncio. Disputar o sofá. Vão querer ir embora. Vão implorar por Wi-Fi. Vão ter saudades. Vão querer voltar. E vão-se aborrecer. Profundamente. Propositadamente.
Estimular tornou-se um mantra parental. Mas eu vou remar contra a maré e escolher não preencher o Verão deles. Não por negligência. Por intenção. O aborrecimento não é um erro de gestão, é terreno fértil. Há um momento, depois do tédio e da frustração, em que a cabeça deles começa a sirandar sem mapa. É aí que o pensamento se torna criativo. Não em resposta a uma actividade, mas em resposta ao vazio.
Deixá-los aborrecer-se é devolver-lhes o direito ao ritmo próprio. E na verdade, o que mais assusta não é vê-los entediados. É vê-los ocupados demais para parar. Sempre a saltar de tarefa em tarefa. De estímulo em estímulo. Como se tivessem sido ensinados a sobreviver ao tempo. Sem saberem viver nele.
O aborrecimento é a matéria-prima da imaginação, da autonomia, da memória. Quem não tem tempo para se aborrecer, não aprende a estar. Aprende a ir escapando. Aprende que só vale a pena o que entretém. Só é bom o que ocupa. Só é certo o que segue o plano. Mas viver exige outro tipo de musculatura. Que estes miúdos, se continuarem assim, não vão ter.
Este verão, os meus filhos vão empilhar pedras. Vão andar à volta das árvores. Vão abrir caixas esquecidas. Vão fugir de casa dez minutos e voltar. Vão ficar longos dias sem novidades. E vão ter tempo suficiente para que as ideias amadureçam. Vão sentir raiva, frustração, animação e muitas alegrias. Não vou privá-los de nada. Vou sim, devolver-lhes tudo. Sem distracções. Porque é importante sentir o mundo sem mediação.
O passar dos dias, o não fazer, o tempo inútil, a saturação do mesmo espaço, a vontade de ir embora, o tédio profundo... tudo isso são ferramentas. Quando lhes permitimos aborrecerem-se, eles começam a escolher. A arranjar alternativas. A criar os próprios Planos B, C, D... e quando começam a fazê-lo, começam a tornar-se autores dos seus dias.
Este Verão, não quero filhos ocupados. Quero filhos presentes. Quero que se cansem de tudo e descubram o que os descansa. Quero que se afastem e regressem. Quero que os dias sejam lentos o suficiente para que possam senti-los. Não quero dias produtivos. Quero dias inteiros. E quero os meus filhos de volta.