O delicado estado do sentido de humor em Portugal

O humor! Essa maravilhosa ferramenta de sobrevivência que nos permite encarar os desafios da vida com leveza e inteligência. É uma pena que, em Portugal, esteja em risco de extinção.
Brincar com certos temas, fere susceptibilidades. Ironizar sobre o quotidiano, há um problema mal resolvido. O sarcasmo, claramente se trata de amargura e ressentimento. Qualquer comentário que fuja do neutro é visto como um ataque pessoal.
E assim vamos andando, a navegar numa rotina cheia de gente melindrada e interpretações pessoais, onde a liberdade para rir se transformou num pavio curto.
Tenho de dissecar este tema. Porque, para mim é, sem dúvida, mais um tema de enterrar a cabeça na areia.
Há uma verdadeira epidemia de gente ofendida. Qualquer frase com um mínimo de graça tem 50% de hipótese de ser interpretada como uma provocação, 30% de ser considerada um insulto pessoal e apenas 20% de ser entendida como o que realmente é: uma piada.
Está tudo regulado para o nível máximo. Pronto a disparar ao mínimo abrir de boca.
Depois, há o humor personalizado. Aqueles que só acham graça ao que não lhes toca. Piadas sobre trânsito, burocracias e meteorologia. Está tudo bem. Mas assim que se toca em algo que possa remotamente cruzar-se com a sua experiência pessoal… está o caldo entornado. Vira o bico ao prego e a piada é vista como um ataque directo e premeditado. Porque, claro, qualquer pessoa acorda de manhã a pensar: Hoje vou escrever uma piada EXCLUSIVAMENTE para atingir a Maria Augusta do 5.º esquerdo.
Noto, igualmente, uma confusão entre brincadeira e ofensa. O conceito de rir de si mesmo não foi completamente absorvido por toda a gente. A ideia de que podemos [ e devemos ] brincar com as nossas próprias características parece um conceito do outro mundo.
Quando há sarcasmo num tema generalista, soltam-se as vozes e saltam as tampas: Mas isso é para mim? Mas porquê enfiar sempre a carapuça??!! Sim, claro, foste a única pessoa no mundo que me veio à cabeça quando escrevi isto. [ Só que não. Quem sabe rir de si próprio, também sabe ficar calado para evitar uma guerra desnecessária ].
Em certas coisas, somos um povo do drama e da tragédia. Se não tivermos um motivo para nos lamentarmos, arranjamos um. Se a piada for demasiado certeira, não rimos. Preferimos mergulhar numa profunda introspecção sobre o quão difícil é a nossa vida.
O humor está mesmo em risco de morte. Se continuarmos assim, daqui a uns anos só poderemos rir em casa. Com a porta trancada, não vá alguém ouvir. O que nos resta? Cultivar o humor entre aqueles que ainda sabem apreciar uma boa piada e aceitar que há coisas demasiado comicas para serem levadas a sério.
Esta é só a minha reflexão sobre o sentido de humor em Portugal. Que não tem graça nenhuma!