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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

14.11.25

O homem das castanhas,

quem é?


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Há sempre um homem das castanhas. O que importa a cidade, o ano, a crise económica, a mudança das estações ou a velocidade com que as pessoas atravessam a rua sem levantar os olhos. Ele está lá. A uma qualquer porta. Encostado a um muro antigo, no canto onde o vento passa mais devagar. Não se anuncia. Limita-se a existir. E, por existir, torna-se espécie em vias de desaparecimento.

 

O homem das castanhas é a prova viva de que a sobrevivência vai para além de certificados, carreiras ou produtividade. Faz-se de presença. Daquela presença paciente, quase estática, como se o mundo à volta estivesse em constante aceleração e ele fosse o único capaz de regular o ritmo. Não está ali para se promover. Está ali para fazer castanhas. E isto, por si só, já é uma afirmação. De carácter.

 

Ele chega cedo. Monta a banca. Acende o lume. Ajeita a grelha. E empilha o que o Outono lhe deu. Não há mistério. Não há segredo industrial. Só ele. Com carvão, fumo e mãos que sabem o ponto. E há um cheiro que anuncia que o frio já venceu o calendário, mesmo antes de as pessoas terem tido tempo de o aceitar.

 

O homem das castanhas vê tudo. Não porque seja observador, mas porque está parado. A rua passa-lhe diante dos olhos. Os que correm atrasados. Miúdos que mastigam a vida sem pressa. Outros que arrastam a alma ao final do dia. Os sacos. As histórias. Sensações reduzidas a passos. Ele vê tudo, mas não se mete. É testemunha silenciosa. Guardião urbano da transição entre estações.

 

Mas o homem das castanhas não é só uma figura típica. Um resquício de uma tradição simpática. Essa é a leitura preguiçosa. O homem das castanhas é resistência. Alguém que se apresenta todos os anos, apesar da chuva, da crise, das modas, da comida rápida e das tendências gourmet. É alguém cujo trabalho depende do clima, do tempo e da vontade dos outros. E que, ainda assim, não desiste.

 

Ele sabe que ninguém precisa verdadeiramente das suas castanhas. Mas sabe também que, quando alguém se aproxima da banca, não vem apenas comprar. Vem à procura de uma pausa. Aquecer as mãos. Lembrar-se do que já foi simples. A castanha quente na palma da mão devolve-nos ao presente. Ao que é elementar.

 

O homem das castanhas não está preocupado. Não quer reinventar o produto. Criar tendência. Impressionar. A banca é sempre a mesma. O saco de papel é sempre igual. A conversa, quando existe, tem duas ou três palavras no máximo. E a experiência, essa sim, é sempre constante. E em tempos voláteis, o constante é luxo.

 

É fácil subestimar o homem das castanhas. Porque medimos o valor das pessoas pela velocidade com que produzem ou pela complexidade do que fazem. Mas o trabalho dele tem a robustez do essencial. Aquecer. Alimentar. Confortar. Há profissões que sobrevivem porque são úteis. Outras, porque são necessárias à alma. A dele é uma intersecção rara entre as duas.

 

Quando o frio aperta, todos procuram um ponto de calor. O homem das castanhas oferece-o sem pedir explicações. A moeda passa de mão em mão. O saco muda de dono. O fumo sobe. O ritmo continua. E há um instante , breve, quase imperceptível, em que tudo parece mais simples do que realmente é.

 

Já houve muitos homens das castanhas. Haverá menos no futuro. As cidades tendem a apagar o que não se adapta à velocidade dos dias. Mas há teimosia nesta figura. Um vínculo directo a um tipo de vida menos apressado. Ansioso. Ruidoso. Ele é uma espécie de memória viva, não porque conta histórias, mas porque vive nelas.

 

Por isso, quando passamos pelo homem das castanhas, não estamos só a passar por alguém que vende castanhas. Passamos por um lembrete de que o mundo não tem de ser sempre urgente. Não tem de ser sempre rápido, nem sempre útil, nem sempre eficiente. Há coisas que são apenas humanas. O homem das castanhas é uma delas.

 

No fundo, quem é? É o que fica quando tudo o resto acelera. É o que permanece quando já quase ninguém permanece. É o que aquece as mãos num tempo em que tudo arrefece depressa. E é por isso, uma das últimas presenças verdadeiramente essenciais do Inverno.

 

 

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