O maior pedido de desculpa que fazemos nesta vida
é a nós próprios.
Há um momento silencioso, sem dramas e sem plateia, em que percebemos que andámos a pedir desculpa às pessoas erradas. Pior: Não foi sequer às pessoas, mas às circunstâncias. Às expectativas. À versão que criámos para agradar a quem nem vai ficar para jantar. De repente, percebemos o absurdo. A única desculpa que realmente pesa é aquela que nunca pedimos a nós próprios.
Pedir desculpa a nós é estranho. É um pedido de desculpa que não tem cerimónia. Nem abraço. Não tem aquela pausa constrangedora que costuma acontecer. Mas porque é que temos de pedir desculpa a nós próprios?
Não é pelo que falhámos. Isso é simples. Faz-se um inventariado e arruma-se. É por termos acreditado durante demasiado tempo em histórias que não nos servem.
Um pedido de desculpa por termos tratado a nossa paz de espírito como se fosse um extra opcional. Daqueles que só se escolhem se sobrar orçamento. Curiosamente, ninguém nos explica que crescer é libertar equívocos. E é nessa libertação que o pedido de desculpa começa realmente a fazer sentido. Um ajuste de contas. Interno.
Há um ponto de viragem. Daqueles que não vêm com o aniversário. Quando percebemos que somos simultaneamente o autor, a personagem e o editor da nossa história. E que tal como na escrita, na vida real também podemos apagar sem culpa. Sem amachucar o papel. O pedido de desculpa a nós próprios é a edição dos parágrafos que já não fazem sentido. É quase administrativo. Como arrumar documentos num arquivo que finalmente fica respirável.
E ganhamos coragem para reescrever. Pedir desculpa a nós próprios abre espaço. E espaço é aquilo que quase todos procuramos. Espaço mental. Emocional. Existir com menos pressa e mais sentido. E a partir desse espaço, o rumo muda. As prioridades alinham. O filtro afina. Começamos a escolher melhor. Pessoas. Ritmos. Silêncios. Até os sonhos.
Porque quando deixamos de nos carregar como vários projectos falhados e nos desculpamos, a vida deixa de ser uma série de remendos e passa a ser a constatação de que nada disto implica heroísmo. A dependência evapora. As expectativas ajustam-se. E até o amor, o próprio e o dos outros, ganha nitidez. E são só pequenas coisas. A assinatura de um pedido de desculpa bem feito. Ajustar o foco da lente. Da imagem que sempre esteve lá. Mas desfocada.
E depois? Depois fica tudo mais leve. Não perfeito. Leve. Porque a partir do momento em que nos perdoamos, não voltamos ao ponto de partida. Voltamos ao ponto mais avançado que já fomos. Só que agora com mais espaço para continuar.
