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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

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16.05.25

O último Sapateiro


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Numa rua discreta da vila onde vivo, havia uma pequena loja com cheiro a couro e cola quente. Lá dentro, um homem de bata castanha mexia nas solas como quem mexe num objecto frágil. Era sapateiro. Profissão que, para mim, criança urbana dos anos 80, parecia tão eterna como os semáforos.

Hoje, passo por essa mesma rua e a loja está fechada. A montra serve agora de armazém improvisado para panfletos e pó. O último sapateiro da vila reformou-se. Ou reformaram-no. Como tantas outras profissões que deixaram de caber nos anúncios de emprego ou nos sonhos dos miúdos.

 

Canalizadores, alfaiates, electricistas, relojoeiros, costureiras. Aqueles que sabiam arranjar as coisas em vez de substituí-las. Estão a desaparecer. Não por falta de mérito, mas por excesso de modernidade. Trocamos de ténis mais depressa do que apertamos os atacadores. Arranjar é quase um ato subversivo.

Curiosamente, ao mesmo tempo que perdemos os artesãos, ganhamos especialistas em tendências efémeras: coaches de respiração, gestores de comunidades, consultores de propósito, criadores de conteúdos.

Não se trata de desprezo pelas novas profissões. Muitas são necessárias e reflectem o mundo como ele é agora, mas não serão [ainda] observadas com a mesma lente crítica com que os nossos avós olhavam para os primeiros trabalhos de escritório: Mas isso é trabalho a sério?

 

As profissões tradicionais ensinavam mais do que técnica. Ensinavam a esperar, davam continuidade. Havia um saber que passava pelas mãos, por gerações. E havia um certo orgulho nisso. Eu sei fazer isto. Eu dou jeito naquilo.

Hoje, damos jeito noutra coisa. Nas redes, nos algoritmos, nos relatórios de impacto. E está tudo certo. Se não nos esquecermos de que alguém ainda tem de saber como se muda um cano. Como se troca um disjuntor. Como se arranja um telhado. Estamos a tornar-nos óptimos a lidar com abstracções, mas quem nos salva quando a torneira não para de pingar?

 

Fala-se muito da inteligência artificial, das profissões do futuro, da automação. Mas há um tipo de inteligência que a máquina ainda não aprendeu: a de arranjar o que vale a pena manter. Acredito que, num futuro próximo, o verdadeiro luxo não seja ter uma assistente virtual, mas conhecer um sapateiro.

E quando isso acontecer, quando tudo for digital, talvez voltemos a repensar o que é feito com as mãos. Talvez, numa outra vila qualquer, um miúdo decida ser electricista. E alguém o olhe com espanto, como quem vê um raro exemplar de uma espécie em vias de renascimento.

 

Gosto dessa perspectiva.

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