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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

13.01.26

Portugal distante,

onde Judas perdeu as botas.


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Aqui não se chega por engano. Não há placas a prometer futuro. Nem rotundas com esculturas abstractas a anunciar progresso. Chega-se porque é preciso. Porque alguém ficou. Porque alguém não saiu a tempo ou porque nunca teve para onde ir. É aí, onde Judas perdeu as botas e o sol se põe mais cedo. Não por razões da Astronomia, mas por razões políticas.

 

O amigo Manuel tem 54 anos e é um dos mais novos. A frase devia ser suficiente para nos envergonhar. Num país que defende a juventude em anúncios de planos de dados de Internet ilimitados, há lugares onde 54 anos é idade de renovação geracional. Manuel faz cerca de 100 Km todas as manhãs com uma mercadoria bizarra: cartões multibanco, receitas médicas, vales - reforma. O multibanco nunca chegou.

 

Chamamos a isto solidariedade. Entreajuda. Espírito comunitário. E é tudo isso, sim. Mas é também um serviço público improvisado. Um ministério móvel de boa vontade. Montado à custa do tempo e da gasolina de quem ainda consegue conduzir. Este vizinho não é um herói. É um sintoma.

 

Portugal gosta muito de mapas. Gosta de cores, de regiões, de rankings. Mas há um país que não cabe nos gráficos. Porque vive fora do campo de visão? Um país colado à fronteira. A uma parede fria, à espera que alguém repare. Lugares longe de tudo o que define a vida moderna. Longe, sobretudo, da ideia de que o Estado chega a todos.

 

Dizemos interior como quem diz antigamente. Como se fosse um tempo verbal e não um espaço habitado. Como se a distância fosse uma opção para quem aprecia silêncio e vistas desafogadas. Não é. É uma consequência. É o resultado lógico de décadas a investir onde já havia investimento, a reforçar centros enquanto se deixavam as margens a resolver-se sozinhas.

 

Nenhum dos candidatos a Belém vai passar por Pereiro, Edral ou Ervedosa. Não porque sejam irrelevantes, mas porque são difíceis. É difícil lá chegar. E o poder, como a água, escolhe sempre o caminho mais fácil. O voto pesa menos quando exige curvas apertadas, quilómetros de estrada secundária e a consciência pesada de quem sabe que não tem soluções rápidas para oferecer.

 

Meia dúzia de pessoas sentadas num banco de pedra, à espera que o dia passe. Excesso de distância. E o problema não é apenas a falta de serviços. É aceitarmos que alguém precisa de entregar o cartão multibanco a um vizinho para ter acesso à própria reforma. É aceitarmos que ir ao médico exige toda uma operação logística. É aceitarmos que envelhecer fora das cidades é um acto de resistência. Mas silenciosa.

 

Diz-se que estas aldeias vão morrer. É uma frase dita com uma facilidade obscena. Como se fosse um fenómeno natural, como a erosão ou a mudança das estações. Não vão morrer. Estão a ser deixadas morrer. Há uma diferença moral enorme entre ambas. E o erro é insistirmos em levar-lhe futuro, quando o que falta é presente. Não é preciso mais. Apenas um banco que funcione. Uma farmácia próxima. Um médico regular. Transporte digno. É preciso que a vida quotidiana aconteça. Apenas.

 

Onde Judas perdeu as botas não é um lugar mítico. É um ponto no mapa onde alguém acorda todos os dias a sabendo que, se algo correr mal, está por sua conta. Para lá do sol posto não há romantismo rural. Há cansaço. Há tempo a mais e ajuda a menos.

 

Porque é que é difícil lá chegar?  Não. Porque é que é tão fácil não ir.

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