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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

20.11.25

As pessoas dão o que são.

E a mais não serão obrigadas?!

  Verdade definitiva, com um ar de sentença final. Como se fechasse todas as perguntas que ficaram sem resposta. As pessoas dão o que são. Uma frase que parece simples. Quase óbvia. Mas dentro dela há um mecanismo curioso: alivia-nos e responsabiliza-nos ao mesmo tempo. É confortável, quase macio. Agrada à nossa necessidade de fechar temas sem mexer demasiado no desconforto.   Mas vale a pena olhar mais de (...)
06.10.25

O lugar vago na mesa,

o que acontece quando deixamos de aparecer.

  Há uma espécie de lei que rege as relações humanas. Se deixas de aparecer, deixas de existir no mapa mental dos outros. Não é maldade. Nem conspiração. É geometria. Quem não ocupa espaço, perde forma.   No início, estranha-se. Na semana seguinte, repete-se a ausência. Na terceira, já ninguém pergunta. Não porque não gostem de nós, mas porque a vida preenche os vazios com outras presenças. É como numa mesa posta, se um lugar fica vazio, ao fim de algum tempo já (...)
27.09.25

Quando for grande quero ser leitora

  Quando eu era criança, perguntavam-me o que queria ser quando crescesse. Houve uma fase em que disse astronauta. Outra em que quis ser mãe de sete filhos. E também houve o momento em que considerei seriamente ser patinadora. Mas havia uma resposta que nunca dei. Achava que não era legítima. Quando for grande quero ser leitora.   Não quero ser escritora, nem professora, não quero ser editora. Só ler. Ler como se lê um pão quente. Como se bebe água quando se tem sede. Como (...)
25.09.25

PALOP,

a porta de vidro que nos separa

  Há quem pense que emigrar começa no aeroporto. Que a aventura começa no adeus à família, no passaporte carimbado, no embarque para uma vida nova. Mas, na verdade, para muitos jovens dos PALOP, a verdadeira fronteira não é geográfica. É administrativa, silenciosa e tantas vezes invisível. A embaixada é o primeiro muro.   Não há sirenes. Nem (...)
24.09.25

Voyeurismo,

o ofício de espreitar

    Espreitar deixou de ser um acto furtivo. É uma rotina social. Não é preciso um buraco na parede nem cortinados mal fechados. Basta deslizar o dedo no ecrã. O voyeurismo já não é um desvio. É um exercício quotidiano com selo de normalidade. O curioso é que o condenamos em teoria. É feio admitirmos que gostamos de espreitar. Mas na prática fazemos dele um hábito tão banal quanto beber um café.   Porque espreitamos? A resposta é menos romântica do que gostaríamos. (...)
22.09.25

Pedimos ao cirurgião para ser mais rápido na operação?

  Temos pressa de tudo. Pressa de sair de casa. De chegar ao trabalho. Responder ao e-mail. Acabar a reunião. Almoçar. Pagar a conta. Regressar. Pressa de fazer. De concluir. Estamos sempre a funcionar como se houvesse um cronómetro a marcar-nos os segundos. E a sensação é sempre a mesma. Já estamos atrasados. Só que, na maior parte das vezes, não estamos. É apenas uma ilusão. Repetida tantas vezes que passámos a acreditar nela.   A pressa tornou-se vício. Um reflexo (...)
20.09.25

Os vícios são a cura para tudo,

menos para o vícios.

Diz-se que o álcool cura tudo, menos o alcoolismo. A frase serve de bússola para pensar num fenómeno maior. Os vícios em geral. Aquilo que parece anestesiar, é precisamente o que se torna a própria doença. E nunca estivemos tão mergulhados em vícios de fachada terapêutica como hoje.   O telemóvel. Um objecto que prometeu aproximação, mas que nos mantém em perpétua sede. Cada notificação é um golorápido. Não mata a sede. Estimula outra. Fingimos que é companhia. (...)
12.09.25

Procurar fora antes de olhar para dentro,

errado.

É um reflexo automático que carregamos na ponta dos dedos. Procurar fora antes de olhar para dentro. Queremos mudar de trabalho? O primeiro impulso é espreitar as ofertas que pipocam nos motores de busca. Nunca nos perguntamos: E se eu reinventasse a forma como trabalho aqui, neste mesmo lugar? Será mesmo necessário trocar de paredes, ou basta trocar de abordagem?   O mesmo se repete em escalas menores e mais subtis. Precisamos de alguém para um novo cargo? Abrimos logo a vaga. (...)
11.09.25

Setembro,

outra vez...

  Setembro é aquele mês que entra de rompante. Como se alguém abrisse as janelas de manhã e decidisse que já chega de ar abafado. Não é bem um começo. Também não é um fim. É aquele intervalo em que se percebe que não dá para continuar em piloto automático. A rotina regressa. Há que fazer ajustes.   Adoro recomeços. Mas não aqueles cheios de promessas desmedidas. Adoro os recomeços domésticos. Os mais silenciosos. Abrir o armário e decidir que metade da roupa já (...)
10.09.25

Gastar dinheiro,

de forma intencional.

Fala-se de poupança como quem fala de higiene. É um dever básico. Fala-se de investimento como se fosse a versão adulta da ambição. Quem sabe investir está a construir o futuro. Mas raramente falamos de gastar dinheiro de forma intencional. Sem culpa. Sem desperdício. Gastar parece sempre associado à leviandade. Ao impulso. À falta de disciplina. Como um erro a justificar.   Só que gastar é inevitável. Um acto que molda tanto a nossa vida quanto poupar ou investir. O que (...)