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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

14.11.25

O homem das castanhas,

quem é?

  Há sempre um homem das castanhas. O que importa a cidade, o ano, a crise económica, a mudança das estações ou a velocidade com que as pessoas atravessam a rua sem levantar os olhos. Ele está lá. A uma qualquer porta. Encostado a um muro antigo, no canto onde o vento passa mais devagar. Não se anuncia. Limita-se a existir. E, por existir, torna-se espécie em vias de desaparecimento.   O homem das castanhasé a prova viva de que a sobrevivência vai para além de certificados, (...)
10.10.25

A felicidade do "quase"

    Gostamos do que está feito. O objectivo cumprido. Ir riscando a lista. O troféu do fazer-fazer. Há uma obsessão por chegar. Por concluir. Por estar lá. Mas o lá tem um problema. Costuma durar pouco. É o golo final do café, aquele que prometia o sabor perfeito, mas que já vem frio. É a fotografia tirada depois de meses e que não diz nada sobre o vazio de ter atingido o resultado. É a meta atingida. A casa decorada. O amor oficial.   O láé o fim. E o fim, por mais (...)
06.10.25

O lugar vago na mesa,

o que acontece quando deixamos de aparecer.

  Há uma espécie de lei que rege as relações humanas. Se deixas de aparecer, deixas de existir no mapa mental dos outros. Não é maldade. Nem conspiração. É geometria. Quem não ocupa espaço, perde forma.   No início, estranha-se. Na semana seguinte, repete-se a ausência. Na terceira, já ninguém pergunta. Não porque não gostem de nós, mas porque a vida preenche os vazios com outras presenças. É como numa mesa posta, se um lugar fica vazio, ao fim de algum tempo já (...)
17.09.25

Quando o sonho já nos está a fazer reagir

  Sonhar é bonito. Inofensivo. Como se fosse um passatempo da mente. Uma distracção de fim de dia. Mas a verdade é que quando queremos alguma coisa a sério, esse desejo deixa de ser um quadro na parede e passa a ser um personal trainer. Sem darmos por isso, começamos a alinhar gestos, decisões e cada músculo mental para estarmos prontos no dia em que a oportunidade bater à porta.   Será magia? Será sorte? Magia não é certamente. E a sorte não bate assim. Quem sonha com (...)
15.09.25

Uma questão de sabedoria,

Simone de Oliveira na Vogue.

  Simone de Oliveira está na capa da Vogue. Com uma elegância esmagadora. De quem viveu. Sentiu. Sofreu. Brilhou. E continua de pé. Com rugas. Marcas. Autenticidade. Sem precisar de se mascarar para ser eterna.    Vivemos tempos estranhos. Mães a quererem parecer filhas. Filtros a esconderem rugas. Cirurgias a padronizarem rostos. Redes Sociais a venderem um ideal de perfeição que não existe. [nem se devia querer] O resultado é pressão psicológica. Sobretudo sobre as (...)
12.09.25

Procurar fora antes de olhar para dentro,

errado.

É um reflexo automático que carregamos na ponta dos dedos. Procurar fora antes de olhar para dentro. Queremos mudar de trabalho? O primeiro impulso é espreitar as ofertas que pipocam nos motores de busca. Nunca nos perguntamos: E se eu reinventasse a forma como trabalho aqui, neste mesmo lugar? Será mesmo necessário trocar de paredes, ou basta trocar de abordagem?   O mesmo se repete em escalas menores e mais subtis. Precisamos de alguém para um novo cargo? Abrimos logo a vaga. (...)
10.09.25

Gastar dinheiro,

de forma intencional.

Fala-se de poupança como quem fala de higiene. É um dever básico. Fala-se de investimento como se fosse a versão adulta da ambição. Quem sabe investir está a construir o futuro. Mas raramente falamos de gastar dinheiro de forma intencional. Sem culpa. Sem desperdício. Gastar parece sempre associado à leviandade. Ao impulso. À falta de disciplina. Como um erro a justificar.   Só que gastar é inevitável. Um acto que molda tanto a nossa vida quanto poupar ou investir. O que (...)
09.09.25

O direito interdito de ser apenas mulher

  Não sou feminista. Não me identifico com as barricadas, nem com os megafones, nem com a exigência de que homens e mulheres sejam iguais em tudo. Não acredito em simetrias forçadas. Somos diferentes. E há uma nobreza intrínseca nessa diferença. Há coisas que são de homens. Há coisas que são de mulheres. E essa divisão natural é uma arquitectura tão antiga quanto a própria humanidade. A diferença não nos diminui. Completa-nos.   Mas o que dizer quando essa diferença (...)
07.09.25

Quem nos salva é a natureza

  Há sempre um momento em que a natureza nos apanha distraídos. Pode ser no instante em que o sol se põe. Ou naquela noite em que prometemos regressar cedo e acabamos a inventar desculpas para prolongar a estadia na areia fria da praia. A natureza tem essa habilidade. Roubar-nos o relógio e devolver-nos a vida.   O mar. Não importa quantas tarefas acumulamos. Quantas notificações esperneiam no bolso. Quantas vezes repetimos que amanhã vai ser um dia puxado. Basta entrar. Basta (...)
26.08.25

Infância incompleta,

meninas que nunca fizeram uma roda

  Há gestos que definem a infância. Não estão nos álbuns de fotografias nem nas avaliações escolares. Estão nelas, crianças. A primeira bicicleta sem rodinhas. O salto para dentro de uma poça de água. A roda no recreio. Esses gestos não são só brincadeiras. São marcos de posse. Coordenação. Confiança. E é aqui que muitas raparigas ficaram a meio.   As raparigas que nunca fizeram uma roda na vida carregam um vazio invisível. Não é sobre a acrobacia em si. É sobre o (...)