Há sempre um homem das castanhas. O que importa a cidade, o ano, a crise económica, a mudança das estações ou a velocidade com que as pessoas atravessam a rua sem levantar os olhos. Ele está lá. A uma qualquer porta. Encostado a um muro antigo, no canto onde o vento passa mais devagar. Não se anuncia. Limita-se a existir. E, por existir, torna-se espécie em vias de desaparecimento. O homem das castanhasé a prova viva de que a sobrevivência vai para além de certificados, (...)
Gostamos do que está feito. O objectivo cumprido. Ir riscando a lista. O troféu do fazer-fazer. Há uma obsessão por chegar. Por concluir. Por estar lá. Mas o lá tem um problema. Costuma durar pouco. É o golo final do café, aquele que prometia o sabor perfeito, mas que já vem frio. É a fotografia tirada depois de meses e que não diz nada sobre o vazio de ter atingido o resultado. É a meta atingida. A casa decorada. O amor oficial. O láé o fim. E o fim, por mais (...)
Há uma espécie de lei que rege as relações humanas. Se deixas de aparecer, deixas de existir no mapa mental dos outros. Não é maldade. Nem conspiração. É geometria. Quem não ocupa espaço, perde forma. No início, estranha-se. Na semana seguinte, repete-se a ausência. Na terceira, já ninguém pergunta. Não porque não gostem de nós, mas porque a vida preenche os vazios com outras presenças. É como numa mesa posta, se um lugar fica vazio, ao fim de algum tempo já (...)
Sonhar é bonito. Inofensivo. Como se fosse um passatempo da mente. Uma distracção de fim de dia. Mas a verdade é que quando queremos alguma coisa a sério, esse desejo deixa de ser um quadro na parede e passa a ser um personal trainer. Sem darmos por isso, começamos a alinhar gestos, decisões e cada músculo mental para estarmos prontos no dia em que a oportunidade bater à porta. Será magia? Será sorte? Magia não é certamente. E a sorte não bate assim. Quem sonha com (...)
Simone de Oliveira está na capa da Vogue. Com uma elegância esmagadora. De quem viveu. Sentiu. Sofreu. Brilhou. E continua de pé. Com rugas. Marcas. Autenticidade. Sem precisar de se mascarar para ser eterna. Vivemos tempos estranhos. Mães a quererem parecer filhas. Filtros a esconderem rugas. Cirurgias a padronizarem rostos. Redes Sociais a venderem um ideal de perfeição que não existe. [nem se devia querer] O resultado é pressão psicológica. Sobretudo sobre as (...)
É um reflexo automático que carregamos na ponta dos dedos. Procurar fora antes de olhar para dentro. Queremos mudar de trabalho? O primeiro impulso é espreitar as ofertas que pipocam nos motores de busca. Nunca nos perguntamos: E se eu reinventasse a forma como trabalho aqui, neste mesmo lugar? Será mesmo necessário trocar de paredes, ou basta trocar de abordagem? O mesmo se repete em escalas menores e mais subtis. Precisamos de alguém para um novo cargo? Abrimos logo a vaga. (...)
Fala-se de poupança como quem fala de higiene. É um dever básico. Fala-se de investimento como se fosse a versão adulta da ambição. Quem sabe investir está a construir o futuro. Mas raramente falamos de gastar dinheiro de forma intencional. Sem culpa. Sem desperdício. Gastar parece sempre associado à leviandade. Ao impulso. À falta de disciplina. Como um erro a justificar. Só que gastar é inevitável. Um acto que molda tanto a nossa vida quanto poupar ou investir. O que (...)
Não sou feminista. Não me identifico com as barricadas, nem com os megafones, nem com a exigência de que homens e mulheres sejam iguais em tudo. Não acredito em simetrias forçadas. Somos diferentes. E há uma nobreza intrínseca nessa diferença. Há coisas que são de homens. Há coisas que são de mulheres. E essa divisão natural é uma arquitectura tão antiga quanto a própria humanidade. A diferença não nos diminui. Completa-nos. Mas o que dizer quando essa diferença (...)
Há sempre um momento em que a natureza nos apanha distraídos. Pode ser no instante em que o sol se põe. Ou naquela noite em que prometemos regressar cedo e acabamos a inventar desculpas para prolongar a estadia na areia fria da praia. A natureza tem essa habilidade. Roubar-nos o relógio e devolver-nos a vida. O mar. Não importa quantas tarefas acumulamos. Quantas notificações esperneiam no bolso. Quantas vezes repetimos que amanhã vai ser um dia puxado. Basta entrar. Basta (...)
Há gestos que definem a infância. Não estão nos álbuns de fotografias nem nas avaliações escolares. Estão nelas, crianças. A primeira bicicleta sem rodinhas. O salto para dentro de uma poça de água. A roda no recreio. Esses gestos não são só brincadeiras. São marcos de posse. Coordenação. Confiança. E é aqui que muitas raparigas ficaram a meio. As raparigas que nunca fizeram uma roda na vida carregam um vazio invisível. Não é sobre a acrobacia em si. É sobre o (...)