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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

18.10.25

Burca,

o véu entre a lei e o visível.

  Portugal. Proibição ou não do uso da burca em espaços públicos. Não sabemos lidar com o que não conseguimos decifrar à primeira vista. Rosto. Intenções. Silêncios. Somos um povo que precisa de ver a cara do outro para medir o tom de voz, a ironia e o perigo. Neste contexto, a burca é uma afronta cultural. O incómodo do não dito em praça pública.   Existe uma contradição. E como todas as contradições, revela mais sobre nós do que sobre quem a usa. Queremos viver (...)
17.10.25

Liberdade

Achamos que somos livres com a mesma ligeireza que dizemos que está sol lá fora. Mas se virmos bem, poucos o são. A maioria apenas trocou as grades visíveis por outras mais subtis. O medo do julgamento. O olhar dos outros. A obrigação social de parecer equilibrado. Produtivo. Interessante. É um cativeiro com luz natural e Wi-Fi.   Liberdade não é viver sem regras. É escolher as nossas. É negar sem dar explicações e aceitar sem justificar entusiasmo. É não ter receio de (...)
16.10.25

Discriminação,

o nome das pedras.

  Tem má fama. A palavra discriminação. É dita com as mesmas rugas na testa quando se fala de injustiça, corrupção ou guerra. Mas o verbo discriminar, no dicionário, não nasceu vil. Originalmente, significava distinguir, separar com critério. A natureza discrimina a flor que só abre à luz certa e o corpo rejeita o que lhe é tóxico. O problema começou quando trocámos o critério pela conveniência e o instinto pela convenção.   Hoje, discriminamos com a mesma (...)
10.10.25

A felicidade do "quase"

    Gostamos do que está feito. O objectivo cumprido. Ir riscando a lista. O troféu do fazer-fazer. Há uma obsessão por chegar. Por concluir. Por estar lá. Mas o lá tem um problema. Costuma durar pouco. É o golo final do café, aquele que prometia o sabor perfeito, mas que já vem frio. É a fotografia tirada depois de meses e que não diz nada sobre o vazio de ter atingido o resultado. É a meta atingida. A casa decorada. O amor oficial.   O láé o fim. E o fim, por mais (...)
08.10.25

Não devemos poupar na realidade,

só nas palavras

  Há quem confunda tacto com omissão. Acha que ser cuidadoso é falar pouco. Esconder. Cortar pela metade. Como se a verdade fosse um bisturi e o silêncio, um penso rápido. Mas é o contrário. Poupar na realidade é empobrecer as relações. O que fere não é a verdade. É a forma como a atiramos.   Explicar é respeito. É o meio-termo entre o silêncio amedrontado e a franqueza em bruto. Andamos a fazer economia emocional. Como se cada conversa fosse uma factura. Mas o que (...)
06.10.25

O lugar vago na mesa,

o que acontece quando deixamos de aparecer.

  Há uma espécie de lei que rege as relações humanas. Se deixas de aparecer, deixas de existir no mapa mental dos outros. Não é maldade. Nem conspiração. É geometria. Quem não ocupa espaço, perde forma.   No início, estranha-se. Na semana seguinte, repete-se a ausência. Na terceira, já ninguém pergunta. Não porque não gostem de nós, mas porque a vida preenche os vazios com outras presenças. É como numa mesa posta, se um lugar fica vazio, ao fim de algum tempo já (...)
25.09.25

PALOP,

a porta de vidro que nos separa

  Há quem pense que emigrar começa no aeroporto. Que a aventura começa no adeus à família, no passaporte carimbado, no embarque para uma vida nova. Mas, na verdade, para muitos jovens dos PALOP, a verdadeira fronteira não é geográfica. É administrativa, silenciosa e tantas vezes invisível. A embaixada é o primeiro muro.   Não há sirenes. Nem (...)
24.09.25

Voyeurismo,

o ofício de espreitar

    Espreitar deixou de ser um acto furtivo. É uma rotina social. Não é preciso um buraco na parede nem cortinados mal fechados. Basta deslizar o dedo no ecrã. O voyeurismo já não é um desvio. É um exercício quotidiano com selo de normalidade. O curioso é que o condenamos em teoria. É feio admitirmos que gostamos de espreitar. Mas na prática fazemos dele um hábito tão banal quanto beber um café.   Porque espreitamos? A resposta é menos romântica do que gostaríamos. (...)
23.09.25

Que o cancro morra de cancro

  Porque é que o cancro não se vai embora. Não é um inimigo externo que um dia vamos erradicar com uma única vacina. Não é uma praga que se espalhou na humanidade e que, eliminada a fonte, desaparecerá do mapa. O cancro nasce de dentro. Do próprio corpo. Das mesmas engrenagens que nos mantêm vivos. E é por isso que não se vai embora.   As células que o originam não são invasoras. São as nossas. O que muda é a forma como quebram as regras. Se o corpo é uma cidade, o (...)
19.09.25

Refugiados,

quem são quando deixamos de os ver como vítimas.

    Há um erro recorrente na forma como falamos de refugiados. O de os tratarmos exclusivamente como vítimas. Sempre com o mesmo enquadramento. Fuga. Barcos. Tendas. Desespero. Um retrato com utilidade mediática, mas redutor. Congela pessoas complexas num instante de fragilidade. E pior. Esgota rapidamente a empatia pública. Quando alguém é apenas um problema, a tendência é querer afastá-lo.   Os refugiados não são pessoas a quem lhes falta algo. São pessoas que (...)