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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

04.12.25

O "cheiro estrangeiro"

da casa das outras pessoas.

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  Há um instante específico que só acontece quando entramos na casa das outras pessoas. O momento em que o ar nos informa que não estamos no nosso território. O cheiro estrangeiro de uma casa é um relatório imediato sobre o mundo alheio. Comprimido em três segundos de uma inspiração mais profunda.   Um cheiro que com linguagem própria. Um código. Uma espécie de identidade que cada (...)
03.12.25

Desperdiçamos toda uma vida,

enquanto pensamos o que fazer com ela.

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  Vivemos numa sala de espera. E sem darmos por isso. Uma sala sem cadeiras nem janelas. Mas com muitos espelhos. Neles, vemos versões de nós mesmos que quase foram. A pessoa que ia começar um curso. A que ia mudar de carreira. A que ia viajar sem mapa. A que ia aprender a tocar piano. A que ia finalmente dizer não a coisas que sempre disse sim.   É uma sala confortável. Morna. Segura. Cheia de planos. E, como todas as salas de espera, é traiçoeira. Nunca começa nada ali dentro. O desperdà (...)
02.12.25

Se a idade fosse um defeito,

a experiência não seria um diferencial.

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  Se a idade fosse um defeito, o mundo tentava escondê-la como quem tapa uma racha na parede. Só que não funciona assim. A idade não racha. Não esfarela. Não parte. A idade acumula. E tudo o que acumula, pesa. Mas também sustenta.   Tratamos a idade como um ruído incómodo que tentamos abafar com exercício físico. Mas a verdade é mais simples. A idade é aquilo que sobra quando já passou demasiado tempo para fazermos de conta. É o estágio em que o filtroda vida se torna (...)
26.11.25

Dar graças à vida,

por tudo.

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  Dar graças à vida, por tudo. Não é um daqueles quadros do Pinterest. Mas até podia vir com filtros sépia. Montanhas ao fundo. E aquela respiração de quem faz pilates numa sala com cheiro a lavado. O problema não é o que dizemos, mas como o usamos. Dar graças, tornou-se decoração. E quando vira decoração, não serve para nada.  
14.11.25

O homem das castanhas,

quem é?

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  Há sempre um homem das castanhas. O que importa a cidade, o ano, a crise económica, a mudança das estações ou a velocidade com que as pessoas atravessam a rua sem levantar os olhos. Ele está lá. A uma qualquer porta. Encostado a um muro antigo, no canto onde o vento passa mais devagar. Não se anuncia. Limita-se a existir. E, por existir, torna-se espécie em vias de desaparecimento.   O homem das castanhasé a prova viva de que a sobrevivência vai para além de certificados, (...)
30.10.25

As flores dão-se a tempo

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  Será a morte o grande mistério? Acho que não. O maior mistério é a vida. E o modo como adiamos o que é essencial até já não servir de nada.   Damos flores a quem já cá não está. Escrevemos discursos para o silêncio. Acendemos velas onde já não há olhos para ver. Fazemos homenagens que chegam tarde. Lágrimas que não servem de consolo a ninguém. Talvez seja a nossa forma de aliviar a consciência. Como quem chega atrasado mas ainda tenta acreditar que o espetáculo (...)
27.10.25

É melhor do que nada,

ou não.

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    É melhor do que nada. Uma frase que parece inofensiva, mas que é uma pequena armadilha de resignação. Soa prática. Madura. Sensata. Mas o disfarce é controverso. Por trás dela vive uma cultura de aceitação do mínimo. O elogio do pouco. O aplauso ao quase. A normalização da mediocridade disfarçada de gratidão.   Aprendemos a dizer É melhor do que nadaquando o dinheiro não chega. Quando o amor não preenche. Quando o tempo livre é escasso. Quando a amizade é morna. (...)
22.10.25

O curto prazo,

vício e salvação.

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  Vivemos a prazo. Não a longo. O outro, o curto. O imediatista. O que promete alívio instantâneo e esquecimento rápido. Vivemos a curto prazo. E o curto prazo é o café da manhã da alma moderna. Desperta. Resolve. Mas não alimenta.   Aprendemos a funcionar em agoras. A comprar porque sim, a desistir porque não. E não é sempre defeito. Às vezes é a única forma de não enlouquecermos num mundo que pede check-lists para sentimentos e prazos para o entusiasmo.   Pensar a (...)
17.10.25

Liberdade

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Achamos que somos livres com a mesma ligeireza que dizemos que está sol lá fora. Mas se virmos bem, poucos o são. A maioria apenas trocou as grades visíveis por outras mais subtis. O medo do julgamento. O olhar dos outros. A obrigação social de parecer equilibrado. Produtivo. Interessante. É um cativeiro com luz natural e Wi-Fi.   Liberdade não é viver sem regras. É escolher as nossas. É negar sem dar explicações e aceitar sem justificar entusiasmo. É não ter receio de (...)
16.10.25

Discriminação,

o nome das pedras.

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  Tem má fama. A palavra discriminação. É dita com as mesmas rugas na testa quando se fala de injustiça, corrupção ou guerra. Mas o verbo discriminar, no dicionário, não nasceu vil. Originalmente, significava distinguir, separar com critério. A natureza discrimina a flor que só abre à luz certa e o corpo rejeita o que lhe é tóxico. O problema começou quando trocámos o critério pela conveniência e o instinto pela convenção.   Hoje, discriminamos com a mesma (...)