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barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

barulho de fundo

quem tem alma não tem calma.

14.11.25

O homem das castanhas,

quem é?

  Há sempre um homem das castanhas. O que importa a cidade, o ano, a crise económica, a mudança das estações ou a velocidade com que as pessoas atravessam a rua sem levantar os olhos. Ele está lá. A uma qualquer porta. Encostado a um muro antigo, no canto onde o vento passa mais devagar. Não se anuncia. Limita-se a existir. E, por existir, torna-se espécie em vias de desaparecimento.   O homem das castanhasé a prova viva de que a sobrevivência vai para além de certificados, (...)
16.10.25

Discriminação,

o nome das pedras.

  Tem má fama. A palavra discriminação. É dita com as mesmas rugas na testa quando se fala de injustiça, corrupção ou guerra. Mas o verbo discriminar, no dicionário, não nasceu vil. Originalmente, significava distinguir, separar com critério. A natureza discrimina a flor que só abre à luz certa e o corpo rejeita o que lhe é tóxico. O problema começou quando trocámos o critério pela conveniência e o instinto pela convenção.   Hoje, discriminamos com a mesma (...)
07.10.25

As chaminés de Sines,

que eram mais do que as chaminés de Sines.

Durante anos, as chaminés de Sines cresceram connosco. Firmes. Quase arrogantes. A cortar o céu como quem marca território. Eram o primeiro sinal de que estávamos a chegar. O marco que indicava que daqui para a frente é mar. Não eram bonitas num sentido romântico, mas tinham presença. Daquela que se impõem.   Agora, o horizonte está limpo. Limpo demais. Fica um vazio estranho, como quando alguém muda um móvel de lugar e o corpo ainda tenta desviar-se dele ao passar. As (...)
06.10.25

O lugar vago na mesa,

o que acontece quando deixamos de aparecer.

  Há uma espécie de lei que rege as relações humanas. Se deixas de aparecer, deixas de existir no mapa mental dos outros. Não é maldade. Nem conspiração. É geometria. Quem não ocupa espaço, perde forma.   No início, estranha-se. Na semana seguinte, repete-se a ausência. Na terceira, já ninguém pergunta. Não porque não gostem de nós, mas porque a vida preenche os vazios com outras presenças. É como numa mesa posta, se um lugar fica vazio, ao fim de algum tempo já (...)
29.09.25

Normalidade,

não sabemos o que fazer com ela.

  Ainda é Setembro. As ruas ainda cheiram a férias interrompidas. As mochilas ainda rangem de novo. O calor durante o dia insiste em não arredar pé. Mas já estamos a falar da Black Friday. Já há anúncios de Natal embrulhados em Setembro. Já há quem marque ceias e troque mensagens sobre o que vai ser este ano. Estamos constantemente a atropelar o presente, como se ele fosse apenas o caminho para o próximo evento.   Vivemos em agenda. É como se tivéssemos assimilado o (...)
27.09.25

Quando for grande quero ser leitora

  Quando eu era criança, perguntavam-me o que queria ser quando crescesse. Houve uma fase em que disse astronauta. Outra em que quis ser mãe de sete filhos. E também houve o momento em que considerei seriamente ser patinadora. Mas havia uma resposta que nunca dei. Achava que não era legítima. Quando for grande quero ser leitora.   Não quero ser escritora, nem professora, não quero ser editora. Só ler. Ler como se lê um pão quente. Como se bebe água quando se tem sede. Como (...)
25.09.25

PALOP,

a porta de vidro que nos separa

  Há quem pense que emigrar começa no aeroporto. Que a aventura começa no adeus à família, no passaporte carimbado, no embarque para uma vida nova. Mas, na verdade, para muitos jovens dos PALOP, a verdadeira fronteira não é geográfica. É administrativa, silenciosa e tantas vezes invisível. A embaixada é o primeiro muro.   Não há sirenes. Nem (...)
24.09.25

Voyeurismo,

o ofício de espreitar

    Espreitar deixou de ser um acto furtivo. É uma rotina social. Não é preciso um buraco na parede nem cortinados mal fechados. Basta deslizar o dedo no ecrã. O voyeurismo já não é um desvio. É um exercício quotidiano com selo de normalidade. O curioso é que o condenamos em teoria. É feio admitirmos que gostamos de espreitar. Mas na prática fazemos dele um hábito tão banal quanto beber um café.   Porque espreitamos? A resposta é menos romântica do que gostaríamos. (...)
22.09.25

Pedimos ao cirurgião para ser mais rápido na operação?

  Temos pressa de tudo. Pressa de sair de casa. De chegar ao trabalho. Responder ao e-mail. Acabar a reunião. Almoçar. Pagar a conta. Regressar. Pressa de fazer. De concluir. Estamos sempre a funcionar como se houvesse um cronómetro a marcar-nos os segundos. E a sensação é sempre a mesma. Já estamos atrasados. Só que, na maior parte das vezes, não estamos. É apenas uma ilusão. Repetida tantas vezes que passámos a acreditar nela.   A pressa tornou-se vício. Um reflexo (...)
19.09.25

Refugiados,

quem são quando deixamos de os ver como vítimas.

    Há um erro recorrente na forma como falamos de refugiados. O de os tratarmos exclusivamente como vítimas. Sempre com o mesmo enquadramento. Fuga. Barcos. Tendas. Desespero. Um retrato com utilidade mediática, mas redutor. Congela pessoas complexas num instante de fragilidade. E pior. Esgota rapidamente a empatia pública. Quando alguém é apenas um problema, a tendência é querer afastá-lo.   Os refugiados não são pessoas a quem lhes falta algo. São pessoas que (...)