Viver com horário de executivo e alma de poeta.

Há quem acorde com um despertador e quem acorde com um verso. O problema é quando se é os dois. Quando se tem de cumprir reuniões às nove, enviar o relatório às onze, alinhar com a equipa às quatro. E a cabeça pede tempo. Para escrever. Quando se sonha por dentro e se finge eficiência por fora.
Viver com horário de executivo e alma de poeta é viver em contradição. Acordamos cedo para trabalhar, mas o melhor pensamento chega às dez da noite, quando já ninguém nos paga para pensar. Passamos o dia a escrever e-mails com fórmulas eficazes, mas queríamos era escrever frases inúteis, cheias de ritmo e sem função. Vivemos dentro de um calendário partilhado, mas não partilhamos o que realmente importa com ninguém: a vontade de escrever.
É uma luta desleal entre o tempo contado e o tempo sentido. A produtividade imposta não respeita a criatividade espontânea. E o mercado não remunera o silêncio. É mais fácil vender dashboards do que contemplações. A cultura do resultado não tem espaço para hesitações líricas, nem paciência para quem demora três dias a encontrar a palavra certa.
No fundo, viver assim é aceitar que a agenda comanda, mas não determina. É saber que a alma de poeta não desaparece. Apenas se esconde em rascunhos de caderno, notas soltas no telemóvel, minutos mortos entre duas reuniões pelo Teams. É fazer do tempo roubado o único tempo verdadeiro. E, às vezes, só mesmo às vezes, aproveitar a insónia como licença poética.
A alma de poeta aprende a adaptar-se. A disfarçar. A responder com o Excel. KPI’s. A estar presente em reuniões. A usar vocabulário técnico como um casaco que não aquece. Aprende a esperar. E, pior, aprende a calar-se.
Mas há um risco nisto: normalizar o adormecimento. Aceitar que os dias passem sem que algo nos espante. Que os textos se tornem apenas funcionais. Que as ideias surjam só para servir objectivos e não para levantar questões. Porque há um momento, que chega sempre, em que a alma começa a bater à porta com força. Exige espaço, exige voz, exige tempo. E aí, ou se escuta ou se estala.
Quem vive assim, sabe que ter alma de poeta num mundo funcional é um acto de resistência. Não se trata de largar tudo para ir viver numa cabana e escrever. Trata-se de manter o pulso firme nas tarefas, sem permitir que o tempo engula o sentido. De continuar a entregar resultados, mas não deixar que os resultados sejam a única medida de valor. De permitir que, no meio da velocidade, ainda haja margem para o inútil, o belo, o gratuito.
Porque uma alma de poeta não quer licença sabática, quer espaço dentro da rotina. Não precisa de liberdade absoluta, precisa de brechas. De 15 minutos sem distracções. De poder pensar sem ter logo de transformar em pitch. É uma corda bamba. Se puxas demais pela eficiência, secas. Se te entregas ao devaneio, ficas para trás. E ninguém quer ficar para trás. Mas também ninguém quer chegar à frente vazio.
Por isso, o equilíbrio possível talvez não esteja no tempo, mas na intenção. Fazer o mesmo, mas com consciência. Trocar um scroll por mais um parágrafo lido devagar. Roubar meia hora do dia para escrever o que não serve para nada, mas salva tudo. Manter a poesia onde ela cabe: nas entrelinhas, nos ruídos, nos detalhes. Onde ninguém repara, mas onde tudo muda.
E se há alguém capaz de viver com horário de executivo e alma de poeta, esse alguém não precisa de mais motivação. Precisa apenas de liberdade para continuar. Para resistir. Para lembrar que é possível pensar alto mesmo com o auricular enfiado no ouvido.
Lembrar que, mesmo no meio do ruído, há sempre espaço para mais um verso.